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Tudo o que quero e não posso, tudo o que posso mas não devo, tudo o que devo mas receio. Queria mudar o Mundo, acabar com a fome, com a tristeza, com a maldade.Promover o bem, a harmonia, intensificar o AMOR. Tudo o que quero mas não posso. Romper com o passado porque ele existe, acabar com o medo porque ele existe, promover o futuro que é incerto.Dar vivas ao AMOR. A frustração de querer e não poder!...Quando tudo parece mostrar que é possível fazer voar o sonho!...Quando o sonho se torna pesadelo!...O melhor é tapar os olhos e não ver; fechar os ouvidos e não ouvir;impedir o pensamento de fluir. Enfim; ser sensato e cair na realidade da vida, mas ficar com a agradável consciência que o sonho poderia ser maravilhoso!...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013


       
 O VOAR DO TEMPO

Olho o voar do tempo que não para!...
Sinto saudades tuas,
Na loucura da vida já partilhada.
A paixão sentida na noite clara,
Das quentes madrugadas nuas,
Com destino e partida adiada.

Liberta-se o pensamento em brisas delicadas,
Sem medo, sente-se o perfume do amor,
No intenso cheiro da paixão.
As duas almas entrelaçadas
Que olham o mundo com pavor,
Esperam sempre o seu perdão.

Em silêncio, caminho pela estrada,
Com imenso desejo de te abraçar,
Tocar a tua alma com emoção.
Com este corpo trespassado pela espada,
De um destino que não quis traçar,
Sigo outro caminho sem condição.

Choro a saudade da tua ausência,
Oiço a melodia que existe em mim,
Na loucura de cruzar o teu olhar.
Fazer do teu pensar a minha consciência,
Em toques de ternura sem fim
E os teus carnudos lábios poder beijar.

Voo como um condor ao sabor do vento,
Cruzo o céu com grande determinação,
Louco pelo teu nome bem alto gritar.
Às estrelas segredo o meu triste lamento,
Procuro no seu forte brilho a compreensão,
Na esperança de um dia te voltar a encontrar.

Carlos Cebolo




TRISTE RECORDAÇÃO
   (perdoa-me Luana)

Numa sinfonia nua e crua,
De um sentimentos sem rumo,
O silêncio em mim desagua,
No infinito da vida sem prumo.

Procuro esquecer o momento,
Em lágrimas sofridas de emoção,
Por te ter condenado à escuridão,
Pensando apenas no sofrimento.

O que fiz; Fi-lo por te ter amor!...
Não aguentei ver-te tanto sofrer,
Quando olhavas para mim com dor.

Ver o teu corpo magro de sofrimento,
Que a qualquer momento podia falecer,
É ainda hoje, o sonho do meu tormento.

Carlos Cebolo

domingo, 10 de fevereiro de 2013




        MAR DO DESASSOSSEGO


Ondas de prazer baloiçam a minha mente!...
Dançam saudades no mar do desassossego,
De um olhar distante que o corpo consente,
Na brisa suave do Outono, no já fraco ego.

No desbotado arco-íris das tristes despedidas,
Num percorrer constante da vida adiada,
Encontra-se as tristes almas esquecidas,
De uma felicidade há muito desesperada.

Este pensamento constante do presente passado,
Que procura a custo reactivar a sua alvorada,
Neste triste inverno para sempre amargurado.

Dramas de um chegado inverno frio e cinzento,
De sonhos adormecidos na passada madrugada,
Que transformam o grito num suave lamento.

Carlos Cebolo

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013



O OUTONO DA VIDA

No renascer da alvorada,
Um grito.
O silêncio da escuridão
Que ecoa em ouvidos moucos,
Inundam a tua boca desejada,
Com lágrima de luar salgada,
Que escore pelo rosto hirto.
Sonetos da indesejada solidão,
Percorrem o vazio como loucos.
Dançam saudades de outrora,
No desalinho ardente da saudade,
À procura da sua aurora,
Nos tempos perdidos da mocidade.
Este renascer tardio do amor,
Que encontra ecos distantes,
Em corações de idêntico fervor,
Que fazem dos seres, amantes.
No entardecer que vence o sono,
O tempo que nunca esqueceu,
Procura vencer o seu Outono,
Com o amor que sempre mereceu.
Este renascer da loucura,
De amar e ser correspondido,
Apenas procura ternura,
No sentimento de grande candura.
Na escuridão, o seu sonho voa,
Por entre nuvens iluminadas pelo luar,
À procura do chamamento que ecoa,
Na esperança de voltar a amar.
O espírito sente-se traído,
Com o chamamento que tarda em chegar,
Como o anjo por terra caído,
Que não se consegue levantar.

Carlos Cebolo




  ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA  
                    EM MUDANÇA                                                   
                                XX Parte
Dois anos depois de estar no Polícia, Carlos, que tinha os estudos necessários e exigidos, concorre a subchefe. Passa no exame de admissão e vai para Alcântara tirar o curso.
Depois do curso, Carlos é colocado a seu pedido em Algés/Miraflores, como subchefe, uma vez que para Viana do Castelo, teria de seguir uma lista de antiguidades.
Em Algés, Carlos procurava estudar e tirar dentro da própria polícia, o maior número de cursos e especialidades que pudesse, pois sabia que com certas especialidades, poderia ir mais rápido para Viana do Castelo, sua terra adoptiva.
Ao ler a ordem de serviço, reparou que a polícia estava a fazer concursos para instrutores de educação física, cujo curso seria tirado no CEFA – Centro de Educação Física da Armada, no Alfeite.
Mais uma vez, Carlos concorreu, foi fazer provas e passou.
Foi então para o CEFA, onde tirou o curso de educação física.
Com o curso na mão, Carlos foi colocado em Viana do Castelo, como instrutor de educação física da Polícia.
Em Viana, estava em casa e a vida tinha melhorado bastante, não só em termos económicos, mas também em estatuto.
Embora a vida de Carlos tinha melhorado bastante, Carlos não ficou parado em Viana do Castelo. Devido ao curso de educação física, foi várias vezes chamado para dar instrução em Torres Novas.
Carlos que não era homem de ficar parado, continuou a tirar outros cursos que apareciam dentro da Polícia
Atingiu assim o posto máximo existente na polícia de base e aí, parou. O posto acima era o início dos postos destinados aos oficiais da academia policial e para aí, Carlos já tinha passado da idade.
Mas não parou de estudar e tirar outros cursos específicos dentro da sua função.
Hoje, encontra-se aposentado, mas não deixou de tentar fazer algo que o mantenha ocupado.
Aderindo às novas tecnologias, criou um blogue onde escreve contos infantis, diferentes dos contos clássicos e já extremamente conhecidos e esbatidos, assim como também escreve poemas, principalmente que o fazem recordar a sua terra natal. Angola.
Esta é uma história verídica, vivida não só pelo autor, mas por milhares de portugueses nascidos nos territórios africanos.
Uns, como Carlos, tiveram sorte e refizeram a sua vida. Outros, menos afortunados, vivem em completo abandono, esquecidos que um dia, foram os grandes defensores de Portugal em terras de África.
FIM
Carlos Cebolo
Com este capítulo termino este pequeno resumo de uma vida igual a tantas outras que, por força de uma política mal dirigida, foi apanhada pelas teias de um drama vivido na realidade da incerteza que depois de 37 anos, ainda continua a ter os seus efeitos nefastos.
Pensei muitas vezes se deveria aqui publicar ou não esta história verídica que pode trazer à lembrança factos muito dolorosos. Mas depois de muito pensar, fiz questão de publicar este pequeno resumo da minha vida, que como disse, é igual ou semelhante a muitas outras de quem veio de África com a revolução, para que os nossos descendentes possam saber um pouco QUEM SOMOS; DE ONDE VIEMOS; O QUE SOFREMOS E O PORQUÊ DA NOSSA CONSTANTE REVOLTA. (Os factos narrados reportam-se apenas ao período entre 1961 a 1976)
O autor
Carlos António de Oliveira Cebolo

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013


            ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA

                                                  XVIII Parte
Eram perguntas que Carlos fazia constantemente a si e ao resto da família.
Andou por Albufeira a tentar arranjar emprego. Chegou mesmo a ir até Faro e Portimão, mas nada.
Carlos sabia que o dinheiro, dez contos que ele e sua esposa tinham trocado, não iriam durar sempre. Além disso, numa consulta médica tiveram a confirmação que sua esposa estava grávida.
Em Angola, nos últimos tempos, não havia contraceptivos e num casal jovem, casado a pouco tempo, era normal isto acontecer, por mais cuidado que se tivesse.
Esta situação mais preocupou Carlos e a família.
Em conversa com o gerente do hotel, Carlos foi informado que no Norte do país era mais fácil arranjar emprego. O norte tinha muita indústria e o Algarve vivia apenas do turismo.
O cunhado de Carlos, irmão da mulher, tinha a mesma idade de Carlos e também, como Carlos, tinha casado em Angola, mais ao mesmo no mesmo tempo, teve conhecimento que a família de sua esposa estava em Viana do Castelo, no Norte do país.
O cunhado de Carlos foi assim incumbido de ir ao Norte, ver a família da esposa e sondar possibilidades de emprego.
De Viana do Castelo telefonou a dizer que na realidade no Norte havia mais possibilidades de emprego e que Viana não era assim tão frio como diziam.
Carlos e toda a família, resolveram assim pedir ao IARN a sua transferência para Viana do Castelo.
Foi assim que Carlos trocou um hotel de cinco estrelas, junto ao Mar, no Algarve, por uma pensão sem estrelas, numa rua escura em Viana do Castelo.
Carlos tinha metido o seu processo como professor primário, no quadro geral de adidos e estava à espera de resposta. Enquanto esperava, procurou trabalhar em algo que aparecesse.
 Fazia de tudo um pouco, para arranjar dinheiro honesto. Trabalhou como estivador no porto mar de Viana do Castelo, sempre que necessitavam de carregar algum navio e não havia trabalhadores suficientes, ou os trabalhadores normais, fizessem greve; Trabalhou como ajudante de funerária, sempre que o dono de uma funerária que também tinha vindo de Angola, necessitava de pessoal para ajudar nos funerais; trabalhou como empilhador de lenha para o forno numa padaria. Em fim trabalhava em tudo que aparecia, desde que fosse honesto.
Quando chegou uma carta do quadro geral de adidos, Carlos ficou esperançado, mas. ao abrir a carta a desilusão foi total.
O seu processo não tinha sido aceite, uma vez que tinha sido nomeado como professor primário por um governo provisório em Angola e esse organismo não tinha qualquer valor em Portugal, embora a sua nomeação tivesse saído num boletim oficial da República Portuguesa. E mesmo que tivesse qualquer valor, teria de ter pelo menos três anos de ensino, o que não era o caso.
Com essa informação, Carlos ficou ainda mais preocupado e procurava a todo o custo, arranjar algum trabalho que fosse fixo.
Para agravar a situação, sua esposa tinha dado à luz, em 08 de Novembro de 1976, um menino. O parto tinha corrido bem, mas a criança tinha nascido com um problema num pé. Tinhas o pé boto.
Durante uma noite, ao ouvir as notícias no televisor da pensão, viu o pedido para alistamento nas forças de segurança.


                                         IXX Parte
Carlos estava farto de fardas, pois há pouco tempo atrás tinha sido militar no norte de Angola, mas viu ali, uma oportunidade de emprego estável que lhe permitisse fazer os tratamentos necessários ao seu filho.
No dia seguinte foi à esquadra da cidade pedir os papéis. Teve sorte. Como graduado de serviço, estava um subchefe que tinha vindo de Angola e que encorajou Carlos a seguir em frente.
Carlos meteu os papéis e aguardou.
Poucos dias depois, recebeu uma carta para se apresentar na Polícia para fazer provas.
Carlos fez as provas e dias de pois, recebeu outra carta para se apresentar em Torres Novas para fazer a recruta.
Carlos lá foi para Torres Novas. Se por um lado ia contente por ver a possibilidade de voltar a ter um emprego estável, por outro ia triste e preocupado por deixar a sua esposa com o filho apenas de dois meses de idade.
Em Janeiro de 1977 entrou finalmente para a Escola prática de Polícia em Torres Nova e depois da recruta foi colocado em Lisboa na Esquadra da Mouraria.
Sem conhecer Lisboa. Carlos preocupou-se em arranjar um roteiro das ruas da cidade e um mapa. Durante as horas de folga, percorria Lisboa a pé para conhecer melhor a sua zona de acção.
Em Lisboa, Carlos além do serviço normal de patrulha que durava seis horas, fazia também os chamados gratificados. Gratificados eram serviços particulares, feito para particulares, mas nomeados pela esquadra. Nomeadamente a casas de espectáculos, futebol, hospitais, etc.
O dinheiro que Carlos ganhava no seu serviço normal de polícia, era remetido para a sua esposa e Carlos vivia em Lisboa com o dinheiro que recebia dos gratificados.
Foram tempos difíceis, mas o mais importante era o seu filho ficar bom da perna, o que veio a acontecer graças aos tratamentos feitos no hospital Maria Pia no Porto. Hoje o filho de Carlos está completamente normal e até foi tropa.
Carlos não sabia nada sobre a sua família que tinha ficado em Angola, pais e irmãos. Mas como sabia o local onde eles estavam a residir na altura em que Carlos abandonou Angola, Carlos escreveu uma carta na esperança de receber notícias.
Um mês depois, recebe uma carta de sua mãe a dizer que o seu irmão mais velho e o seu pai tinham sido presos pelo MPLA. O irmão por ter sido tropa portuguesa e o pai pelo facto de não dizer que não sabia onde Carlos estava.
Os familiares de Carlos ainda estiveram presos três anos, no forte de S. Nicolau na província do Namibe e o irmão chegou mesmo a estar enterrado na areia da praia apenas com a cabeça de fora para ver se confessava ser da Unita. Mas como não havia qualquer acusação e depois dos negros naturais de Vila Arriaga dizerem que eram boas pessoas é que foram soltos, Mas mesmo assim, de vez em quando eram abordados com pedidos de víveres.
Como não eram autorizados a viajar para Portugal, depois de alguns anos, a família de Carlos consegue ir para o Brasil. Primeiro o seu irmão e um ano depois os seus pais e do Brasil vieram para Portugal.
Já em Portugal, a mãe de Carlos contou todo o martírio que eles passaram. O pai de Carlos com o Land Rover que tinha, fazia muito comércio com os indígenas. Ia para fora da cidade e trazia sempre leitões, cabritos e galinhas para vender na cidade e assim ia vivendo.
Para ser deixado em paz, a mãe de Carlos todas as semanas assava um leitão que era levado como prenda ao comandante do MPLA no Lubango, além de dar de comer a dois graduados cubanos.
 Foi assim que conseguiu a autorização para viajar para o Brasil.

sábado, 2 de fevereiro de 2013


             
  ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA
                                                     XVI Parte
A cadelinha depois de ver a cobra morta sossegou, mas não deixou de gemer. Carlos pegou-a ao colo e procurou alguma ferida que ela pudesse ter.
Felizmente estava tudo bem com a cadela, que arriscou a sua própria vida para salvar os seus donos. Se a cobra entrasse na casa, certamente haveria alguém que seria mordido e, sem qualquer medicamento disponível, seria uma morte certa.
Dias depois, o exército sul-africano recebe ordens para sair de Angola. Foi novamente formada a coluna com os milhares de Angolanos estacionados em Pereira D’Eça e que de livre vontade quiseram abandonar Angola e, com a protecção dos sul-africanos, rumaram com destino desconhecido principalmente pelo pessoal angolano.
Nessa altura, Carlos mentaliza-se que iria abandonar a sua terra e começar uma aventura da qual não sabia o fim. Apenas sossegou a esposa dizendo:
- Tenho dois braços para trabalhar, uma cabeça para pensar e juventude no corpo. Fome, não havemos de passar. Vamos tentar ficar na Namíbia ou na África do Sul. Ficamos relativamente perto e talvez um dia se possa voltar para a nossa terra.
A caravana chamada de, os refugiados de Angola, Segui o seu caminho por terras da Namíbia, sempre com protecção da tropa sul-africana, nomeadamente o seu batalhão “Búfalo” que era composto por tropas da África do sul e mercenários, alguns oriundos de Angola e por tal motivo, falavam português.
Carlos foi apresentado por uma prima de sua esposa, a um desses militares de nacionalidade angolana. Esse militar era quem transmitia as ordens do comando sul-africano aos refugiados angolanos
.Ao cair a noite, a coluna fez uma pousa algures na Namíbia, onde foi montado um acampamento improvisado, junto aos carros e onde foi passada a noite. Logo pela manhã, foi retomada a marcha até Grootfontein.
Em Grootfotein deixaram os carros e toda a carga que traziam, num grande descampado. Aqui, o comando sul-africano informou que iríamos fazer uma viagem de comboio até Windhoek e depois seriamos enviados de avião para Portugal.
Quanto aos carros e toda a sua carga, seriam despachados por eles, também para Portugal, com destino a Lisboa.
Carlos falou com o militar amigo para ver qual a possibilidade de ficar na Namíbia.
O militar de nome Jhon disse a Carlos que isso não era possível, pois Carlos, embora fosse branco, tinha a pele morena e não era aceite pelos sul-africanos, cuja política praticava o apartheid e eram muito rigorosos.
Depois de uma longa viagem de comboio, onde Carlos sentiu a violência dos funcionários Namibianos, composta por homens da raça himba, conhecidos em Angola como Mucancalas, que tinham medo de poder haver qualquer fuga em por isso, não deixavam ninguém sair dos camarotes da composição férrea.
A cadelinha laica acompanhou sempre os seus donos. O pouco que eles tinham para comer, era também repartido pela cadelinha que viajou sempre dentro de uma sacola que a esposa de Carlos levava ao ombro.
Em Windhoek, foram todos dirigidos para um grande acampamento improvisado com barracas do exército sul-africano e foi distribuído ração de combate como alimento.
A água também era fornecida por autotanques do referido exército.
Dias depois, todos receberam ordens para se prepararem para a viagem de avião com destino a Lisboa. Apenas se podia levar o que coubesse numa saca de mão e tínhamos de abandonar os animais de estimação.
Carlos aflito com o que poderia acontecer à sua querida cadelinha, procurou o militar amigo e perguntou qual a possibilidade de a levar.
                                                   
                                                            XVII Parte
O militar foi falar com o seu comandante e pouco depois voltou e disse não haver grandes hipóteses, os controladores junto à porta de embarque estavam a revistar tudo e a recolher todos os animais.
O militar mostrou interesse em ficar com a cadelinha, pois gostou muito dela.
Carlos pois de falar com a família, resolveu entregar a laica ao militar que a levou, deixando Carlos e sua esposa com lágrimas nos olhos.
A família de Carlos aguardava na tenda a sua vez para o embarque.
Duas horas depois do militar ter levado a cadelinha, Laica apareceu na tenda. Vinha muito aflita e com uma corda ao pescoço.
Carlos fez-lhe uma festa e procurou sossega-la.
O sentido de orientação ou o olfacto, tinham levado a cadelinha até aos sons donos, encontrando a sua tenda no meio de milhares.
 Nisto, aparece o militar muito aflito. Vinha à procura da cadelinha que tinha roído a corda e fugido.
Carlos ainda tentou não entregar novamente a cadelinha e tentar arranjar uma maneira de a levar consigo.
Um vizinho refugiado que também tinha perdido o seu cão, aproximou-se e disse a Carlos:
 É melhor entregar a este senhor a cadelinha, pois ele vai cuidar dela. O meu não teve tanta sorte. Como ninguém o quis, vai ser abatido.
Ouvindo isto, Carlos entregou novamente a cadelinha e deixou a recomendação de que tivesse muito cuidado com ela, pois ela não podia engravidar e que não a tratasse como um qualquer cão, pois ela estava habituada a ter sempre muito carinho e amor.
O militar lá levou a cadelinha ao colo, fazendo-lhe festinhas na cabeça e desapareceram.
Carlos nunca mais viu a sua querida cadelinha.
Quando chegou a vez de Carlos e sua família embarcarem, Carlos viu junto à porta de embarque vários animais metidos numa jaula Com os olhos procurou entre eles a laica, mas não a encontrou ali. Nesse momento, convenceu-se que tinha tomado a melhor decisão, ao ter entregue a sua cadelinha ao militar amigo.
O avião depois de cheio, levantou voo, fez escala na Costa do Marfim e terminou a sua viagem em Lisboa, no aeroporto figo maduro.
A viagem de Carlos e os dias difíceis, não tinham acabado.
No aeroporto figo Maduro, em Lisboa, havia uma comissão com o nome IARN que era um Instituto de apoio ao retorno de nacionais, que ali se encontrava para receber os refugiados e dar o primeiro apoio.
 Depois de trocarem apenas cinco contos por pessoa, foi dado a escolher a Carlos um destino pré definido. Havia vagas nos hotéis em Lisboa e em Albufeira no Algarve.
A família de Carlos não conhecia nada de Portugal, mas sabia que o Algarve era mais quente que Lisboa e, como traziam pouca roupa de inverno, resolveram ir para Albufeira.
Depois de uma manhã inteira, sentados no chão, ao Sol, junto a uma parede do aeroporto, à espera do autocarro que os levaria para o Algarve, finalmente embarcaram.
Chegaram ao Algarve, nomeadamente a Albufeira, já de noite e foram para o hotel Rocamar.
Rocamar era um belo hotel. de cinco estrelas, junto ao mar e isso animou mais a família de Carlos. Pelo menos em Portugal não havia guerra e tinham algum apoio.
A vida no Algarve não estava a correr mal, pois tinham dormida e comida, mas e o resto? Quanto tempo aquela situação iria durar?

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013



            
                ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA                                        
                                                        XIV Parte
Como nada encontraram. Foram embora, mas antes fizeram novos disparos para o tecto e janelas.
A cadelinha quando ouviu os tiros, urinou pelas patas abaixo e foi esconder-se na casa de banho. Quando os militares saíram, a cadelinha correu para o quarto do casal e escondeu-se lá.
Carlos foi dar com a cadelinha que tremia por todos os lados, escondida entre as mantas que estavam espalhadas no chão do quarto. Fez-lhe uma festa na cabeça, pegou nela ao colo e levou-a para o quintal, para longe do barulho. A cadelinha levou muito tempo a acalmar e depois disto, sempre que ouvia qualquer barulho estranho, gemia com medo.
Pascoal passava estes conturbados dias, junto à casa de Carlos. A população já tinha muito pouco o que comer e ali, sempre que Carlos ia almoçar, dava também um prato com comida ao seu aluno.
Quando os militares se foram embora, Pascoal foi ter com Carlos que se encontrava no quintal da casa e disse:
- Professor, alguns destes homens são os mesmos que foram à minha sanzala e que queriam prender o professor.
Carlos agradeceu e sossegou o seu aluno.
O tempo foi passando e Carlos e toda a população que tinha ficado na vila, estavam cada vez mais receosos.
A luta armada partidária estava no seu zénite. A Unita tinha vindo com uma força bastante grande, apoiada pelos sul-africanos e tinha corrido com o MPLA do sul de Angola e ocuparam todo o território até às portas de Luanda.
Carlos e toda a população ficaram contentes. Pois o MPLA não tinha deixado saudades. Estavam esperançados que agora as coisas iriam entrar nos eixos. Puro engano.
Os militares, desta vez em nome da UNITA, invadiram novamente a casa de Carlos à procura de armas.
Fui o mesmo terror. E o mais grave é que Carlos conheceu os militares. Eram os mesmos que lá tinha estado em nome do MPLA. Apenas tinham mudado de camisola política.
Foi a gota de água,
Em Janeiro de 1976, A sogra de Carlos fecha a casa comercial, entrega a mesma a um colaborador negro da sua confiança e com toda a família e restantes moradores da vila, carregaram as carrinhas com o que puderam e fizeram uma caravana em direcção a Sá-da-Bandeira.
No Lubango foram para o Bairro Benfica, onde a sogra de Carlos tinha uma vivenda e ali ficaram a ver as coisas a acontecer. Mas sempre com esperança de quando tudo assentasse, voltarem para a sua vila. Nunca lhes tinha passado pela cabeça, abandonarem Angola.
No Lubango as coisas estavam mais calmas, mas mesmo assim era perigoso sair à rua. Os militares da UNITA que ali tinham ficado, eram sem preparação alguma e apenas utilizavam as armas para roubar o pouco que ainda havia. Os outros, mais preparados civil e militarmente, tinham ido com a tropa sul-africana para junto de Luanda.
O cunhado de Carlos. O Rui Gaspar, também conhecido por Cuanhama devido à alcunha do pai, que tinha ido ao centro da cidade para ver se encontrava amigos, foi preso pelos militares da UNITA e levado para o batalhão militar. Um amigo foi à casa da sogra de Carlos e contou o que se tinha passado. Uns militares queriam o relógio que o cunhado de Carlos tinha no pulso e como este não lho deu, acusaram-no de ser do MPLA e prenderam-no.
                                          XV Parte
O sogro de Carlos, Alberto Gaspar, conhecido no Lubango por Cuanhama e que foi um grande guarda redes do Benfica do Lubango, conhecia o comandante da UNITA, foi ao batalhão para falar com ele, mas não chegou a entrar. À porta do batalhão estava um militar muito jovem com uma arma na mão e quando o sogro de Carlos disse que queria falar com o comandante, o militar perguntou qual o motivo. Quando o sogro de Carlos disse o motivo, levou umas chapadas na cara e foi mandado embora ou também iria preso.
Quando o sogro de Carlos chegou a casa e contou o que tinha acontecido, começou a formar-se a ideia de que Angola estava perdida. Os não pretos, mesmo angolanos, não tinham ali lugar.
Uns dias depois, o exército sul-africano regressa e começa a retirada das suas tropas de Angola. Nessa altura fazeram convite a quem os quisesse acompanhar, pois iriam deixar Angola de vez.
O comandante da força sul-africana disse que garantia a segurança dos que quisessem ir com eles até à fronteira, nomeadamente até à cidade de Pereira D’Eça, onde iriam estacionar e aguardar ordens. Mas quem quisesse ficar, ficaria por conta e risco próprio.
Com a retirada dos sul-africanos, o MPLA apoiado por forças internacionais, nomeadamente soviéticas e cubanas, deslocaram-se em direcção ao sul de Angola.
Com a chegada das tropas sul-africanas ao Lubango, os homens da UNITA soltaram os presos e também se prepararam par fugir.
Carlos foi avisar os seus pais e restante família, que também estavam no Lubango, que ia embora com os sul-africanos e que possivelmente iria abandonar Angola.
Ninguém dos seus familiares quis ir. Pois não lhes passava pela cabeça abandonar Angola, uma vez que não conheciam qualquer outro país e a sua vida era ali.
Carlos despediu-se e disse que iria tentar fazer a vida noutro sítio qualquer, pois Angola estava perdida.
Carlos nessa altura pensava poder ficar na Namíbia ou África do Sul.
No dia seguinte, logo de manhã, foi formada uma coluna de viaturas civis e militares e seguiram para Pereira D’Eça.
A cidade de Pereira D’Eça estava super lotada e depois de muito se procurar, lá se arranjou uma casa desabitada, velha, sem portas e sem telhado, onde Carlos e a família montaram acampamento
Laica a cadelinha foi com eles, pois acompanhava sempre o casal.
No acampamento improvisado, os colchões estavam estendidos no chão da casa que lhes servia de abrigo.
Ao fim da tarde a cadelinha laica começou a ladrar muito aflita e a dar pulos.
Carlos foi ver o que se estava a passar, quando viu a sua querida cadelinha a lutar desesperadamente com uma grande cobra cor de chumbo, com cerca de metro e meio de comprimento e com 3 a 4 centímetros de largura que tentava ir em direcção à casa onde estavam acampados.
A cobra acossada pela cadelinha, meteu-se debaixo da carrinha do sogro de Carlos e enrascou-se no eixo traseiro.
A cadelinha ladrava, urinava e dava pulos, mostrando os seus pequenos dentes à cobra.
Um tio da mulher de Carlos, que também ali estava acampado, com um pau comprido, matou a cobra.
Continua 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013



                             
                                    ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA

                                                               XII Parte
Laica gostava muito de ovos estrelados. Sempre que os novos donos se sentassem à mesa para o pequeno-almoço, Laica ia para junto deles e também tinha o seu pires com um ovo estrelado no canto da sala, onde normalmente comia.
Quando Carlos saia para o trabalho, Laica ficava à porta de casa e ladrava até o novo dono desaparecer da sua vista. Só depois é que se ia deitar na sua caminha, que ficava aos pés da cama dos donos.
Um dia, no fim das aulas, um aluno negro ficou para o fim. Carlos durante todo o dia tinha reparado que o aluno não estava bem. Havia qualquer coisa que o preocupava. Perguntou o que ele tinha, mas o Pascoal, assim se chamava o aluno, respondeu que não tinha nada.
O Pascoal era um bom aluno. Muito inteligente. Estava mesmo acima da média. E por isso Carlos ficou ainda mais preocupado, mas disfarçou e fingiu que nada se estava a passar.
Enquanto Carlos arrumava a sala para o dia seguinte, e na sala só se encontravam ele e o Pascoal, o aluno aproximou-se de Carlos e falou:
- Senhor professor. Eu tenho uma coisa para lhe contar!
Carlos fez uma festa na cabeça do aluno e perguntou:
- Diz lá amigo o que queres?
Pascoal encheu-se de coragem e disse:
- Senhor professor, ontem à noite na minha sanzala, apareceram umas pessoas que eu não conheço e estiveram a falar com os homens. Eles queriam vir prender o senhor professor. O meu pai foi contra e disse que o professor é boa pessoa. É amigo dos negros. Mas os homens diziam:
-O professor foi tropa portuguesa e por isso tem que ir embora ou vai preso.
O meu pai disse que isso não é suficiente, pois o seu filho mais velho, o Mesquita, tinha ido para a tropa com o professor e eram muito amigos. Desde crianças.
E o Pascoal continuou:
- Ouvi os homens dizerem que não há brancos bons.
Carlos agradeceu ao seu aluno e disse:
-Não te preocupes Pascoal. Eu não fiz mal a ninguém e por isso não tenho nada a recear. Contudo muito obrigado por me avisares!
O aluno saiu e Carlos fechou a escola e foi para casa como sempre fazia.
A guerra civil entre os movimentos que tinha começado em Luanda, tinha-se expandido por toda Angola. Vila Arriaga, apesar de ser uma pequena vila, não foi excepção.
 Quem não tinha nada a temer, como Carlos e sua família, mantiveram-se calmos a trabalhar.
Escola acabou por fechar por ordem da directora; as repartições públicas tinham fechado todas. Só o comércio se mantinha aberto, vendendo à população, o que ainda havia para comer.
Angola não tinha governo. Mandava quem estivesse a controlar a zona. Umas vezes o MPLA, outras vezes a UNITA ou a FNLA.
Mas todos pareciam ser unânimes numa coisa: Angola era deles e tudo o que lá havia também.
Os comerciantes eram obrigados a fornecer comida gratuita aos militares. Se no o fizessem sofriam represálias.
Como a força militar mais numerosa em Vila Arriaga era a do FNLA, a casa comercial mais forte, neste caso a casa Lauro Almeida Gonçalves, pertença da sogra de Carlos, foi a nomeada para fornecer comida a este movimento.
Carlos, com a escola fechada, passava o tempo a trabalhar na casa comercial da sua sogra.
                                                          XIII Parte
 A sogra de Carlos, tinha uma casa bastante rica. Era um comércio misto que vendia de tudo. Desde medicamentos a livros escolares, passando pela mercearia, roupas, perfumes, etc. Havia também uma secção de brinquedos e uma de ferragens agrícolas. Era a única do género naquela vila e concelho.
A loja era abastecida por um armazém que a sogra de Carlos fazia questão de estar sempre repleto de mercadoria. Era hábito que já vinha do seu falecido pai, fundador da casa comercial.
Uma vez por mês iam a Sá-da-Bandeira comprar mercadorias para a loja. Mas ultimamente, Sá-da-Bandeira já não tinha mercadoria para vender e a sogra de Carlos resolveu ir a Moçâmedes fazer compras para a loja.
No regresso, com a carrinha carregada, à saída de Moçâmedes, foram mandados parar por um controlo dos militares do MPLA.
O militar do MPLA que tinha mandado parar a carrinha, estava a implicar, pois queria descarregar a carrinha ali mesmo. Nisto apareceu o Comandante e depois de uma conversa com a sogra de Carlos, que lhe explicou para onde ia a mercadoria, o comandante repreendeu o militar e disse:
- Então tu não vês que estes camaradas estão a levar comida para o povo da Bibala? Tem juízo e vai lá para dentro!
O militar retirou-se contrariado e a carrinha seguiu o seu destino.
Nessa altura, o MPLA estava a controlar as cidades e vilas do Sul de Angola, zona onde se encontrava Vila Arriaga.
A verdade se diga, o MPLA era a força que tinha os comandantes mais bem preparados e o verdadeiro selo de povoamento. Brancos, mulatos e negros. Nos outros movimentos, os militares eram todos negros. Só na parte política é que tinham mulatos e brancos,
Com a guerra civil, os movimentos abandonaram a Vila e só lá apareciam em patrulha.
Se o MPLA controlasse aquela zona, a patrulha era desse movimento.
Se fosse a UNITA a controlar a zona, a patrulha seria da UNITA e assim por diante.
Desde modo, a população tinha que ter cartões dos três movimentos para mostrar nos diversos controlos existentes, conforme a cor de quem estava a controlar a zona.
Era a luta pela sobrevivência.
Poucos dias depois, logo pela manhã cedo, apareceu na Vila uma carrinha com militares. Pararam em frente à casa comercial onde ficava também a residência de Carlos que tinha a porta aberta, como sempre fazia, logo que acordava.
Carlos sem nada a temer, estava à porta de casa a ver a movimentação e curioso para saber o que se estava a passar.
Os militares desceram da carinha, entraram para dentro da casa de Carlos empurrando-o e perguntaram por armas.
Gritavam todos os mesmo tempo:
- Onde tens as armas? Onde estão guardadas? Ao mesmo tempo que disparavam as suas armas em direcção ao tecto da casa, que ficou todo esburacado.
Revistaram a casa toda, partiram móveis, levantaram os colchões, reviraram tudo. Mas como era de esperar, não encontraram qualquer arma.
 Carlos apenas tinha tido em tempos uma caçadeira, mas essa arma já tinha sido entregue, precisamente ao comandante do MPLA, numa altura em que ele andou de casa em casa a desarmar toda a gente. Até as pressões de ar que a sogra de Carlos tinha para vender na casa comercial, levaram.
Continua

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013



                 
                          ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA

                                                 X Parte
No dia seguinte Carlos e todos os seus camaradas, passaram à disponibilidade, a guerra tinha acabado. Julgavam eles. Mal sabiam que a verdadeira guerra iria começar.
Como angolano, Carlos ficou alegre, foi para a sua Vila, onde tinha a noiva e concorreu a um lugar de professor primário que havia em aberto na escola onde fez a primária.
O processo de Carlos foi aceite pelo governo provisório de Luanda e assim que saiu a sua colocação no Diário da Republica, Carlos começou a dar aulas em Vila Arriaga.
Carlos, assim como a grande maioria dos Angolanos, pensavam que tudo iria ficar na mesma. Angola apenas deixava de ser governada por portugueses e passava a ser governada por angolanos. Carlos sentia-se português, pois nunca teve qualquer outra nacionalidade e tinha sido tropa portuguesa, mas também era angolano por nascença.
Pensava que brancos, mulatos e negros, eram todos angolanos e Angola dava para todos. Por isso, pensou continuar em Angola.
Durante o primeiro ano, tudo correu dentro da normalidade. Carlos, foi leccionar a turma da terceira classe. Eram no total 20 alunos. Carlos preparou os alunos para a prova escrita de passagem para a 4ª classe.
No final do ano, Carlos levou os alunos a exame e dezasseis passaram para a quarta classe. Quatro não atingiram os objectivos.
Foi um resultado bastante positivo, mas Carlos ficou triste pelos quatro alunos que teriam de repetir o ano.
Carlos nunca pensou em sair da sua terra e como tinha um emprego que pensava ser estável, pois Angola necessitava de quadros, casou e formou a sua própria família.
A vida de Carlos era de casa para a escola e da escola para casa, não se metia em política, embora tivesse um fraco pela UNITA. Talvez por ser o movimento que se encontrava mais perto da sua zona de residência, já que os do norte, pouco ou nada lhe diziam.
Mas mesmo esse fraquinho que sentia pela UNITA, Carlos nunca deixou transparecer, pois sabia que tinha alunos cujos pais eram adeptos dos três movimentos e também alguns, nomeadamente brancos, que como Carlos, se sentiam portugueses.
Um dia em que o programa escolar mandava fazer um desenho da bandeira Nacional, Carlos viu desenhos com todas as bandeiras: Portuguesa: Do MPLA; da FNLA e da UNITA. E a todos deu a nota bom, sem fazer qualquer comentário.
O que Carlos sentia pela UNITA, era apenas simpatia e nada mais. Os seus símbolos sempre foram os portugueses desde que nascera e agora estava à espera que formassem novos símbolos, que representasse a nova Angola. Seriam esses os seus novos valores patrióticos, como Angolano que era de nascença, embora fosse português de coração.
Muitos portugueses abandonaram Angola em 1975, mas Carlos e sua família ficaram na terra onde tinham nascido. Nunca tinham feito mal a ninguém e não conheciam o chamado Portugal continental.
 Na escola onde dava aulas à terceira classe, havia o tão falado selo de povoamento de Marcelo Caetano, brancos, mulatos e negros. Todos eram tratados por igual.
No segundo ano, Carlos deveria dar aulas à quarta classe, mas não chegou a dar.
As eleições não chegaram a ser feitas e o Alto-comissário de Portugal para Angola, O tristemente conhecido Almirante Rosa Coutinho, o Almirante vermelho, pertencente ao partido comunista Português, deu a independência ao MPLA, embora a UNITA tivesse maior população.
                                             XI Parte
Com essa triste resolução deu início à terrível guerra civil Angolana.
Muito armamento soviético entrou em Angola e, com esse material, veio também muita tropa cubana para as fileiras do MPLA.
 A luta entre os partidos tinha começado e Angola entrava a ser completamente devastada.
O MPLA controlava grande parte de Angola, com excepção do leste, onde a Unita se tinha refugiado e dava luta ao MPLA apoiado pelos cubanos.
Os Estados Unidos da América, resolvem então apoiar a UNITA e, para além de mandarem armamento, solicitaram também o apoio militar da África do Sul que entrou em Angola com o seu batalhão Búfalo para ajudar a UNITA.
A força sul-africana e as tropas da UNITA, rapidamente tomaram novamente conta de grande parte do território de Angola, só parando à entrada de Luanda.
Neste ano de 1976, havia eleições nos Estados Unidos da América e a força da África do Sul, estava à espera de ordens para entrar em Luanda e tomar a cidade.
Corria o rumor em Angola, que tudo seria decidido depois das eleições dos Estados Unidos. Se ganhassem os republicanos que estavam no poder, a força sul-africana tomaria Luanda, mas se ganhassem os democratas, a força sul-africana retiraria e abandonava a UNITA.
Savimbi garantia que iria tomar Luanda, mas o que aconteceu foi precisamente o contrario.
Nos Estados Unidos, ganhou as eleições o democrata Jimmy Cárter e as forças sul-africanas saíram de Angola.
Com a retirada dos sul-africanos, a UNITA recuou até ao seu território natural, o leste de Angola.
A partir do leste, a UNITA continuou a dar luta ao MPLA, mas desta vez, em vez de guerra clássica, manteve a guerra de guerrilha que durou até à morte de Savimbi em 2002.
Nenhum departamento governamental estava a funcionar e as escolas não eram excepção. Estava tudo parado.
Um casal amigo da família de Carlos, funcionário do governo português em Angola, recebeu ordens para regressar a Portugal. Esse casal, com muita mágoa, arrumou as suas coisas e foram para Moçâmedes, onde estava um navio português à espera dos muitos funcionários que abandonavam Angola.
Este casal, tinha uma cadelinha pequena, com o pelo branco e preto. Era da raça que em Angola se chamava de Bambi. A cadelinha era muito linda e meiga. O casal passou por Vila Arriaga a caminho de Moçâmedes e deu a cadelinha à família de Carlos, uma vez que não a podia levar para Portugal.
Com lágrimas nos olhos, entregaram a cadelinha e pediram que tivesse com ela muito amor e cuidado. A cadelinha era para eles, como uma filha.
A senhora, ao entregar a cadelinha disse:
- Por favor, tenham cuidado. Não a deixem engravidar, pois ela tem o útero muito estreito e não pode ter filhos. Cuidem dela. E se um dia tiverem de sair de Angola, por favor não a deixem abandonada.
A família de Carlos agradeceu ao casal amigo, despediram-se com grande emoção e pegaram a cadelinha ao colo. O nome desta cadelinha era Laica.
Como Carlos se tinha casado há relativamente pouco tempo, a Laica foi adoptada como uma filha e passou a ser a alegria da casa. A cadelinha agradecida, ou por ser da sua própria natureza, aceitou muito bem a mudança de donos e rapidamente se adaptou à nova casa.
Continua

domingo, 20 de janeiro de 2013



                   
                    ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA     
                                                        IX Parte
 A partir desse dia e durante o tempo que Carlos estive em Calamboloca, a mulher foi sempre a lavadeira de Carlos, do outro furriel e do alferes do pelotão de Carlos que também ainda não tinham lavadeira.
Nesse período a secção de Carlos fez protecção ao comboio que ia para Malange, sem nunca ter sequer dado um tiro. Nunca houve qualquer contacto com o chamado inimigo, apesar do comboio ir sempre à pinha e Carlos ter conhecimento de, de vez em quando haver conflitos no mesmo.
Numa patrulha apeada que o pelotão de Carlos fez pela zona, apenas encontrou no meio da mata vestígios já antigos de pequenos acampamentos dos chamados turras, mas nada recente.
Na realidade, tudo indicava que em Dezembro de 1973, a guerra estava realmente ganha pelo exército português no norte de Angola.
Quando regressou à fazenda tentativa e se juntou á sua companhia, Carlos pensou que iria ficar por ali até ao fim do seu tempo militar. Mas não. Pouco depois a companhia recebe ordens para ir para o Sul. Destino Pereira D’Eça, junto à fronteira com a Namíbia.
Em Pereira D’Eça, Carlos estava praticamente em casa, pois a sua cidade Sá-da-Bandeira, ficava relativamente perto.
Nesta zona de Angola, não havia guerra, a companhia de Carlos foi ali colocada como prevenção contra a SWAPO.
SWAPO era o movimento de libertação da Namíbia que, segundo informações dadas pelos sul-africanos, apoiava a UNITA e esta apoiava a SWAPO. Assim Carlos fez várias vezes patrulhas junto à fronteira sem nunca ter qualquer contacto quer com um, quer com outro grupo de guerrilheiros.
É aqui, em Pedreira D’Éça que Carlos ouve a notícia de ter havido um golpe de Estado em Portugal, e que os militares conhecidos como o grupo dos capitães, chefiados no terreno por Salgueiro Maia, tinham tomado conta do poder e que Marcelo Caetano, primeiro ministro de Portugal que tinha sucedido a Salazar, tinha fugido para o Brasil.
Dias depois, os movimentos, que até aí, estavam completamente destroçados, reorganizaram-se e começaram a entrar em Angola, sem qualquer intervenção militar portuguesa e, começou a grande confusão.
Os movimentos eram três, A FNLA de Holden Roberto; O MPLA de Agostinho Neto e a UNITA de Jonas Savimbi. Todos queriam tomar conta dos quartéis portugueses e ficar com o armamento português.
Havia ordens do Alto-comissário de Portugal para Angola, o senhor Almirante Rosa Coutinho, para não se oferecer resistência aos movimentos e que Portugal estava a negociar a entrega pacífica das províncias aos respectivos movimentos.
Como em Angola havia três movimentos, estava-se a preparar tudo para haver eleições democráticas, controladas por Portugal.
Um dia, aparece no quartel em Pereira D’Eça, uma delegação da UNITA, chefiada por um tal Vaculucuta que foi falar com o capitão para fazerem uma mudança de poderes. Carlos não sabe o que se passou, mas sabe o que o seu capitão fez e muito bem.
O capitão da companhia de Carlos, não estava na disposição de entregar a sua companhia aos movimentos de libertação.
Assim, mandou reunir a companhia e em coluna militar segui para Sá-da-Bandeira, onde entregou a companhia com todo o material e pessoal aos seus superiores do RI nº 22.

                                              X Parte
No dia seguinte Carlos e todos os seus camaradas, passaram à disponibilidade, a guerra tinha acabado. Julgavam eles. Mal sabiam que a verdadeira guerra iria começar.
Como angolano, Carlos ficou alegre, foi para a sua Vila, onde tinha a noiva e concorreu a um lugar de professor primário que havia em aberto na escola onde fez a primária.
O processo de Carlos foi aceite pelo governo provisório de Luanda e assim que saiu a sua colocação no Diário da Republica, Carlos começou a dar aulas em Vila Arriaga.
Carlos, assim como a grande maioria dos Angolanos, pensavam que tudo iria ficar na mesma. Angola apenas deixava de ser governada por portugueses e passava a ser governada por angolanos. Carlos sentia-se português, pois nunca teve qualquer outra nacionalidade e tinha sido tropa portuguesa, mas também era angolano por nascença.
Pensava que brancos, mulatos e negros, eram todos angolanos e Angola dava para todos. Por isso, pensou continuar em Angola.
Durante o primeiro ano, tudo correu dentro da normalidade. Carlos, foi leccionar a turma da terceira classe. Eram no total 20 alunos. Carlos preparou os alunos para a prova escrita de passagem para a 4ª classe.
No final do ano, Carlos levou os alunos a exame e dezasseis passaram para a quarta classe. Quatro não atingiram os objectivos.
Foi um resultado bastante positivo, mas Carlos ficou triste pelos quatro alunos que teriam de repetir o ano.
Carlos nunca pensou em sair da sua terra e como tinha um emprego que pensava ser estável, pois Angola necessitava de quadros, casou e formou a sua própria família.
A vida de Carlos era de casa para a escola e da escola para casa, não se metia em política, embora tivesse um fraco pela UNITA. Talvez por ser o movimento que se encontrava mais perto da sua zona de residência, já que os do norte, pouco ou nada lhe diziam.
Mas mesmo esse fraquinho que sentia pela UNITA, Carlos nunca deixou transparecer, pois sabia que tinha alunos cujos pais eram adeptos dos três movimentos e também alguns, nomeadamente brancos, que como Carlos, se sentiam portugueses.
Um dia em que o programa escolar mandava fazer um desenho da bandeira Nacional, Carlos viu desenhos com todas as bandeiras: Portuguesa: Do MPLA; da FNLA e da UNITA. E a todos deu a nota bom, sem fazer qualquer comentário.
O que Carlos sentia pela UNITA, era apenas simpatia e nada mais. Os seus símbolos sempre foram os portugueses desde que nascera e agora estava à espera que formassem novos símbolos, que representasse a nova Angola. Seriam esses os seus novos valores patrióticos, como Angolano que era de nascença, embora fosse português de coração.
Muitos portugueses abandonaram Angola em 1975, mas Carlos e sua família ficaram na terra onde tinham nascido. Nunca tinham feito mal a ninguém e não conheciam o chamado Portugal continental.
 Na escola onde dava aulas à terceira classe, havia o tão falado selo de povoamento de Marcelo Caetano, brancos, mulatos e negros. Todos eram tratados por igual.
No segundo ano, Carlos deveria dar aulas à quarta classe, mas não chegou a dar.
As eleições não chegaram a ser feitas e o Alto-comissário de Portugal para Angola, O tristemente conhecido Almirante Rosa Coutinho, o Almirante vermelho, pertencente ao partido comunista Português, deu a independência ao MPLA, embora a UNITA tivesse maior população.
Continua