Acerca de mim

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Tudo o que quero e não posso, tudo o que posso mas não devo, tudo o que devo mas receio. Queria mudar o Mundo, acabar com a fome, com a tristeza, com a maldade.Promover o bem, a harmonia, intensificar o AMOR. Tudo o que quero mas não posso. Romper com o passado porque ele existe, acabar com o medo porque ele existe, promover o futuro que é incerto.Dar vivas ao AMOR. A frustração de querer e não poder!...Quando tudo parece mostrar que é possível fazer voar o sonho!...Quando o sonho se torna pesadelo!...O melhor é tapar os olhos e não ver; fechar os ouvidos e não ouvir;impedir o pensamento de fluir. Enfim; ser sensato e cair na realidade da vida, mas ficar com a agradável consciência que o sonho poderia ser maravilhoso!...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013




                                           
                                                      VI Parte
Durante a semana que Carlos esteve em Luanda, aproveitou para conhecer a cidade. E para isso nada melhor do que andar a pé.
Luanda era nessa altura, uma cidade bastante grande e com muito movimento. Carlos para não se perder, procurou circular pelas principais avenidas, ruas e praças, sempre com um ponto de referência. O bastante alto prédio do Banco comercial de Angola e a Fortaleza. Eram estes os dois pontos de referência de Carlos. Assim, conheceu um pouco de Luanda.
Uma semana depois, a companhia recebe ordens para avançar em coluna para o norte, com destino a Sanza Pombo e daí para Quicua, onde iria render uma companhia de militares açorianos, cujo objectivo era proteger a engenharia militar que andava naquela zona a abrir estradas pela mata a dentro, e ao mesmo tempo, fazer uma ocupação efectiva do território, obrigando os grupos armados terroristas a recuarem para além das fronteiras de Angola.
A companhia militar de Carlos, era móvel e por tal motivo, não tinha poiso certo, nem instalações fixas. Eram montadas tendas grandes, onde o pessoal dormia. Por isso, sempre que o capitão ordenava a montagem de um acampamento, era feita uma grande clareira na mata. Eram montados os holofotes alimentados por geradores, em todo o redor do acampamento e havia uma guarda permanente.
Como não havia campo de poiso para a avioneta que fazia os abastecimentos de víveres para a tropa, Uma vez de quinze em quinze dias, a avioneta passava e deixava cair do ar, em pleno voo, os sacos com os produtos alimentares e com o correio. Deste modo, quando os sacos batiam no chão, arrebentavam e o que vinha lá dentro espalhava-se pela pequena clareira aberta para o efeito.
 Os militares recolhiam os pedaços de alimento, nomeadamente à base de frango que depois de lavados com a pouca água que havia, pois a mesma era recolhida nos riachos próximos que tinham água corrente, era depois tudo cozinhado com massa ou arroz, para matar a fome a toda a companhia.
Não havia aqui distinção entre soldados, sargentos e oficiais. Todos comiam da mesma comida. Estilhaços de frango com massa ou com arroz.
Normalmente, o dinheiro para pagar aos militares da companhia, vinha juntamente com o dinheiro do destacamento de Quicua, pois era bastante perigoso ir apenas um destacamento pequeno, levantar quantias tão grandes ao Batalhão de Sanza Pombo. Dizia-se que já tinha havido no passado, ataques dos turras com intenção de roubarem o dinheiro.
No final do mês, o Capitão ordenou a Carlos que fosse com os seus homens e integrasse a coluna de Quicua, que ia a Sanza Pombo levantar o dinheiro e que trouxesse o dinheiro da companhia.
Carlos escolheu os seus melhores homens, por sinal todos negros e integrou a coluna militar. Em Sanza Pombo dormiu essa noite no batalhão e no dia seguinte regressou a Quicua na coluna militar.
No caminho, a coluna parou junto a um aldeamento e a população ofereceu aos militares garrafas de Marufo. Murufo é um vinho artesanal, feito da seiva da palmeira e em troca os militares deram ração de combate.
Esses aldeamentos. Eram um conjunto de habitações feitas em barro e cobertas com colmo e folhas de palmeira, onde o exército português acantonava a população civil negra, acabando com as sanzalas dispersas que antigamente havia por toda Angola.

                                                 VI I Parte
Junto a esses aldeamentos, a população tinha as suas lavras, nomeadamente de milho, batata-doce (cará) e mandioca. E era chefiada por um soba nomeado pela própria população, a quem as autoridades portuguesas pediam responsabilidades era considerada população amiga.
Toda a lavra encontrada fora das zonas destinadas a esses aldeamentos, era destruída, pois entendia-se que eram lavras ilegais para alimentar os turras.
Carlos, por ser a primeira vez que tinha directamente responsabilidades pela guarda e transporte de tanto dinheiro, levava a saca a tiracolo, junto ao seu peito e nunca abandonou a viatura.
Felizmente, a viagem correu sem qualquer incidente, mas Carlos só sossegou quando entregou ao 1º sargento e ao capitão, o dinheiro que trazia.
Assim, passou Carlos o tempo da sua vida militar no Norte de Angola, na zona de Quicua.
Todos os dias, às vinte e uma horas, Carlos e os seus camaradas furriéis, que dormiam na mesma tenda, ouviam num pequeno rádio que Carlos tinha, as notícias da rádio Brazavil, que transmitia em Português.
Ouvir a rádio Brazavil era proibido, mas naquele fim do Mundo não havia PIDE e todos estavam sossegados.
 Foi aí que Carlos soube que a final, os terroristas não eram terroristas, mas sim movimentos de libertação do território Angolano, que lutavam contra o jugo de Portugal.
Também ouvia que afinal os ditos movimentos tinham uma organização política por de trás dos militares e que um tal Holden Roberto era o comandante supremo da FNLA e que do lado do MPLA havia uma cúpula política encabeçada por Mário Pinto de Andrade e pelo Doutor Agostinho Neto, médico formado em Portugal.
As cúpulas políticas destes dois movimentos não se davam bem e esse sentimento era passado para os militares operacionais. Deste modo, sempre que se encontravam, havia lutas entre eles. Por aqui se via que ambos queriam a qualquer custo, chamar o protagonismo para si, ignorando o outro.
Durante a permanência de Carlos como militar, na zona então considerada crítica, por se encontrar muito perto da fronteira com o Zaire, a tropa portuguesa não deu, nem ouviu qualquer tiro e não houve qualquer contacto com os chamados inimigos.
 Apenas se via de vez em quando, umas minas anti-carro, enterrado na picada. Sinal que os turras andavam por ali.
 Mas nem esta forma de luta, utilizada pelos homens da FNLA ou do MPLA, era eficaz, pois as minas eram colocadas durante a noite, à pressa e de forma deficiente, em zonas de grande inclinação, nomeadamente em morros e, com a chuva que naquela zona era constante, no outro dia de manhã, os referidos artefactos militares ficavam a descoberto e eram facilmente detectáveis.
Isto só vinha reforçar o que a propaganda portuguesa dizia.
A rádio portuguesa quando falava da luta armada, salientava sempre que os turras em termos militares, estavam completamente inoperacionais no norte de Angola, baseando a sua fraca acção em palestras políticas no estrangeiro, com o propósito de poder haver, por parte dos países, nomeadamente africanos, mas também europeus, uma possível pressão política sobre Portugal.
Dizia a propaganda política portuguesa que tudo não passava de manobras para meterem as mãos nas grandes riquezas que o solo e o subsolo Angolano tinha.


terça-feira, 8 de janeiro de 2013



                   ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA
                                                         V PATE
Em Janeiro de 1972, foi para Nova Lisboa, para a Escola de Sargentos Milicianos, onde tirou o curso.
Durante o curso de Sargentos milicianos, Carlos ouviu falar que na realidade havia uma luta armada entre o exército português, do qual fazia parte e os turras. E que os turras não passavam de bandos armados pelo estrangeiro que queriam tirar Angola aos portugueses para serem eles a explorar as suas riquezas.
Como Carlos não percebia nada de política, assim como a grande maioria dos seus colegas, mentalizou-se que a luta era necessária para libertar Angola das forças estrangeiras que a invadiam.
Para Carlos, Angola era e sempre seria, província portuguesa. Nunca conheceu outra bandeira a não ser a das quinas e nunca cantou outro hino que não fosse a portuguesa Aliás, símbolos pelos quais sempre teve muito orgulho.
Contudo, como Carlos também pensava pela sua cabeça e não pela cabeça dos outros, apercebeu-se que algo mais sério se passava. Os turras não podiam ser apenas bandos armados sem qualquer organização. Se assim fosse, não resistiam tanto tempo a um exército poderoso e bem armado como era o exército português.
Também já na tropa, Carlos pelos poucos jornais que lia, apercebeu-se que a província era muito rica em diamantes e petróleo e daí a cobiça dos países estrangeiros, nomeadamente a União Soviética e os Estados Unidos da América. E que eram estes países que armavam os turras.
Pela informação que tinha, a América do Norte armava os turras da FNLA e a União Soviética, que era comunista, armava o MPLA.
Depois da recruta e da especialidade de atirador, Carlos foi para Sá-da-Bandeira, para o Regimento de Infantaria nº 22, onde deu três recrutas antes de rumar com destino ao Norte de Angola, nomeadamente para a zona de Sanza Pombo, junto à fronteira com o Zaire.
Durante o tempo que esteve em Sá-da-Bandeira, em conversa com outros furriéis e Alferes, que pouco ou quase nada também sabiam sobre a luta armada, ouviu o nome de MPLA; FNLA e UNITA, mas sempre designados por turras. Nunca se ouvia falar em Movimentos de Libertação.
Sabia que a Unita operava no leste de Angola e era o movimento que estava mais activo. E dizia-se que o Savimbi tinha sido da UPA e depois deixou a UPA para formar a UNITA com apoios portugueses.
O MPLA e a FNLA ou UPA, operavam no Norte de Angola, mas estavam praticamente derrotados.
Quando o capitão que ia comandar a companhia com o nº 1305/72, onde Carlos estava inserido como furriel do 1º pelotão se reuniu com os restantes oficiais e sargentos para comunicar para onde se dirigiam, é que ouviu da boca do capitão que iam para uma zona cuja operacionalidade hostil era da responsabilidade repartida entre o MPLA e a FNLA. Mas que para nós, pouco nos importava que fosse um ou outro. O importante era defender o território português.
Assim, Carlos e os seus companheiros, militares portugueses, todos com excepção dos oficiais, nascidos em Angola, brancos, mulatos, e negros, todos companheiros da mesma aventura, rumaram, como primeiro destino, o Grafanil em Luanda, onde seria formada a companhia com todos os seus quadros militares e administrativos.
Continua

domingo, 6 de janeiro de 2013





                         ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA
                                         

                                                      IV Parte
A grande maioria dos pais, metiam os filhos na mocidade portuguesa, não por ideias políticas, mas sim por medo de serem perseguidos pela PIDE. Pois quem não tinha os filhos na mocidade era considerado contra o governo de Salazar e como tal, eram indesejáveis à sociedade.
Era o primeiro passo para serem perseguidos.
Na escola de Carlos, tudo corria bem. Depois das aulas Carlos como membro da mocidade portuguesa, ia com os seus camaradas para a sede da organização, onde havia entre outras coisas, aulas de ginástica. Uma manhã, sem qualquer aviso, apareceram uns senhores de fato e gravata na escola e levaram o professor Cecílio Moreira, seu encarregado de educação e chefe da Mocidade, com eles.
A notícia espalhou-se como uma bomba. O professor Cecílio, muito respeitado por todos, tinha sido preso pela PIDE.
Quando Carlos necessitava que o seu encarregado de educação assinasse algum teste escrito que tinha recebido, Carlos ia à cadeia para falar com o professor Cecílio.
O professor Cecílio Moreira, sempre muito amável, explicou a Carlos, que não era conveniente continuar a ser o seu encarregado de educação, uma vez que poderia trazer complicações tanto para o pai de Carlos, como para o próprio Carlos.
Durante as férias, apareceram em Vila Arriaga, uns senhores que se reuniram com o administrador e fizeram perguntas a várias pessoas do Vila e também ao Carlos e ao seu pai.
Depois desse dia, o pai de Carlos foi a Moçâmedes, falou com outro seu amigo, de nome Dantas, que também trabalhava na Escola, mas na secretaria, para passar a ser o encarregado de educação de Carlos.
Carlos nunca mais ouviu falar do bom professor Cecílio. Nem ninguém sabia do seu paradeiro.
Os anos foram passando, a vida corria com normalidade. Ouvia-se de vez em quando notícias da luta armada contra os turras e que estes estavam completamente derrotados em Angola. Só no norte de Moçambique e na Guine é que ainda havia alguma luta.
Carlos fez o ciclo preparatório em Moçâmedes e como o seu avô estava doente, seu pai pediu a sua transferência para Sá-da-Bandeira, cidade que ficava apenas a cinquenta quilómetros da Vila onde viviam os pais de Carlos.
Em Sá-da Bandeira, estudou na Escola Industrial e comercial Artur de Paiva, onde completou o curso comercial.
Durante os seus estudos na EICAP, Carlos não ouvi falar em guerra ou em guerrilha.
Tudo parecia estar normal.
 Ninguém tinha medo dos turras ou da guerra. Mas todos tinham medo da PIDE. E talvez por causa disso, é que ninguém se importava com a política. Apenas sabiam que a luta no norte de Angola era cada vez mais fraca e só esporadicamente, se ouvia dizer que no Leste ainda havia luta contra os turras, mas que os militares estavam a ganhar terreno. Os terroristas estavam cada vez mais fracos e muito em breve seriam definitivamente derrotados.
  Como no Sul de Angola e, principalmente em toda a sua zona costeira até Luanda, se circulava sem qualquer problema e com grande liberdade de movimentos, Carlos nunca mais se preocupou com tal assunto. E como sabia que a PIDE prendia qualquer pessoa, sem qualquer motivo, como tinha acontecido com o seu professor em Moçâmedes, facto que nunca falou com ninguém, mas também nunca esqueceu, tinha medo que a ele ou ao seu pai, viesse acontecer o mesmo.
Como qualquer jovem da sua idade, Carlos também namorava e, entre promessas de amor eterno e casamento, a vida só fazia sentido em Angola. Nunca foi sequer imaginado viver noutro lado, até porque tanto Carlos, como a namorada, não conheciam qualquer outro país.
Chegou altura de Carlos ir para a tropa.
Continua

sábado, 5 de janeiro de 2013



                          ANOS CONTURBADO DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA                                             
                                                       III Parte
A mãe que não queria ver o filho preocupado e com medo, inventou uma desculpa e disse que o pai ia à caça com os amigos.
No dia seguinte, na escola, ouviu uma conversa entre a professora e o senhor Amaro, que trabalhava na administração do concelho como escriturário.
 Falavam baixo, mas ouviu que falavam da milícia e dos turras. E estavam preocupados.
Intrigado, perguntou aos outros colegas se nas suas casas havia algo de anormal?
Todos responderam que não.
Seria possível que só ele estaria preocupado com o que se estava a passar no norte? Só ele não. Os adultos também estavam. Por que razão faziam milícia? E o que era milícia? E o que quer dizer upa? E turras?
Tantas perguntas para a qual não tinha respostas e que os adultos não estavam com disposição para esclarecer.
O tempo foi passando. Carlos acabou a primária e foi estudar para a cidade de Moçâmedes. Ficou na casa do seu avô paterno.
O seu avô, natural da Metrópole, gostava muito de ouvir as notícias no rádio que tinha na sala de jantar e que era alimentado por uma bateria grande.
À hora das notícias, todos tinham que ficar calados, pois ele queria ouvir todas as notícias sem barulho. Foi aí que Carlos deu conta de que algo de anormal se estava a passar no norte de Angola.
Um dia, quando conversava com o seu avô, sentado no quintal da vivenda onde viviam, perguntou-lhe o que se estava a passar no norte de Angola com os turras.
Seu avô explicou-lhe que turras, quer dizer terroristas e que eram um bando de negros do Congo que tinham invadido Angola e tinham morto à catanada alguns colonos portugueses. Mas que o governo de Salazar já tinha mandado tropas para guardar o território.
Carlos interrompeu o seu avô e perguntou quem era Salazar?
O avô, com grande paciência, explicou-lhe que Salazar era o governante do país. Estava em Lisboa, capital de Portugal e era quem mandava em tudo.
Carlos aproveitou a boa disposição do seu avô, e perguntou-lhe o que era milícia.
Novamente o avô de Carlos, explicou que milícias eram grupos de cidadãos que com as suas armas de caça, faziam rondas pelas cidades e vilas para guardar a população, normalmente à noite quando todos estavam a dormir, para que não acontecesse o mesmo que aconteceu no norte de Angola.
Depois de uma pausa, o avô de Carlos continuou:
-Não te preocupes meu neto. Estuda para seres um homem. Salazar já mandou muita tropa para Angola e os militares vindos da Metrópole, já estão a tomar conta da situação.
Como o avô de Carlos já tinha uma idade que não lhe permitisse acompanhar os estudos do neto com a atenção necessária, o pai de Carlos falou com um seu amigo que além de professor na escola comercial e industrial Infante D. Henrique, onde Carlos ia continuar os seus estudos, era também o comandante da Mocidade Portuguesa, para ser o encarregado de educação de Carlos, perante a escola.
A Mocidade Portuguesa era uma organização de origem política cujos membros tinham uma farda composta por calção de caqui e camisa verde com o escudo de Portugal bordado no bolso esquerdo, meias altas até ao joelho, sapatos os botas castanhas e um cinto em cabedal de cor castanha, cuja fivela era um S. O S de Salazar.
 Continua

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013



               ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA
                                                      II Parte
Carlos olhou para o Mapa e pouco depois disse: Está aqui. Vila Arriaga é este pequeno ponto junto a esta serra.
A professora então explicou:
- Pois bem meninos. A nossa vila chama-se Vila Arriaga, mas o concelho chama-se Bibala. Há mapas que trazem o nome dos concelhos, mas outros apenas trazem o nome das cidades e vilas mais importantes. É este o caso. Mas o mais importante é vocês fazerem como o Carlinhos. Ao procurarem o nome das cidades e vila no mapa, estou a estudar a sua localização e isso é muito importante. Quando forem para casa ou mesmo aqui durante o recreio, estudem o mapa e vão ver que encontram muitos nomes de terras que pertencem a Angola, mas que não conhecem. É uma boa forma de se estudar geografia.
Os colegas de Carlos, entusiasmados com a ideia, faziam jogos.
Lurdes foi a primeira a perguntar aos colegas:
Ora vejam lá, onde está Benguela?
E todos se puseram a ver no mapa para ver se encontravam Benguela.
O jogo continuou, sempre com a procura de nomes novos.
Só o Carlos, não entrou na brincadeira, estava mais preocupado em saber qual a distância entre o norte e o Sul.
Queria saber se o massacre que ouviu o seu pai falar com os amigos, ficava perto ou longe. E o que na realidade se tinha passado.
No fim das aulas, depois de todos terem saído, Carlos que se tinha deixado ficar para último, virou-se para a professora e perguntou:
Senhora professora. Por favor diga-me se o Norte é perto daqui.
A professora sem suspeitar de nada, respondeu:
- Carlinhos, o norte é muito grande e é muito longe daqui. Mas porque queres saber?
Carlos, encheu-se de coragem e disse à sua professora.:
- Senhora professora, ontem à noite, ouvi o meu pai conversar com o meu tio Fernando e com o senhor Simões e diziam que no norte tinha havido uma revolta e que tinha morrido muita gente.
A professora que sabia o que se tinha passado, pois também ouvira as notícias dadas pela rádio católica, apressou-se a sossegar o seu aluno, dizendo:
-Não te preocupes. O norte é muito longe daqui e o que lá se passou, foi apenas uma revolta dos trabalhadores contra os patrões. Mas não foi nada de grave. Não houve mortes como dizes. Com certeza ouviste mal e confundiste morte com norte.
Vai para casa e estuda. Não te preocupes que isto passa.
Carlos foi para casa, mas não ia convencido. Tinha a certeza de ter ouvido o seu pai falar em massacre e catanas e uma tal UPA.
Quando chegou a casa, arrumou a pasta da escola e foi para o escritório do pai a estudar o mapa e ver se descobria algo mais.
 Sempre que o rádio do pai que se encontrava no escritório sempre ligado, dava notícias, Carlos ficava com muita atenção para ver se ouvia algo mais sobre o norte e o massacre.
 Mas nada. O senhor do rádio não falava nada sobre o tal massacre.
 Durante o jantar, viu que o seu pai comia à pressa, o que não era normal.
 Depois do jantar, o seu pai vestiu um casaco e saiu com a arma de caça que tinha. Uma caçadeira de dois canos e um cinto com cartuchos.
Carlos perguntou à mãe:
- Mãe onde é que o pai vai com a arma?

sábado, 29 de dezembro de 2012



    ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA
        (Baseado em factos reais da vida dos chamados retornados, vividos pelo autor)
                                             I Parte

Carlos nasceu em Angola, filho de pais angolanos, mas descendente de avós portugueses. Não todos. Como outras famílias existentes em África, o avô paterno e materno eram naturais de Portugal, mas as avós já tinham nascido em Angola, filhas de colonos portugueses.
            A família de Carlos sempre viveu no Sul de Angola. Não sabiam nada de política e apenas se preocupavam em desenvolver a sua terra e dela tirar o proveito necessário à sua vivência diária.
            De Angola, sabiam que era uma província de Portugal.
            De Portugal, apenas sabiam que era um pequeno país da Europa e que era vizinho da Espanha. Mais nada sabiam nem se preocupavam em saber!
Em 1961, tinha Carlos dez anos de idade, quando ouviu o pai falar com os amigos, que tinha havido uma revolta no norte de Angola.
            Carlos ouviu o seu pai falar em mortes e isto aguçou-lhe a curiosidade. Procurou ouvir mais, mas o seu pai e os amigos, saíram de sua casa e foram para o clube local. Apenas ouviu seu pai dizer para a sua mãe, que ia para uma reunião com o Administrador.
            O pai de Carlos tinha um mapa de Angola no seu escritório e Carlos, aproveitando a saída do pai, dirigiu-se ao escritório e pôs-se a observar o mapa.
            Sabia que Luanda, a capital da província era no norte, pois estudava isso na escola, na disciplina de geografia. Por isso, em primeiro lugar procurou Luanda.
            Depois de muito procurar, lá encontrou junto ao mar, um ponto preto e junto a esse ponto estava escrito Luanda.
            Ah!... Disse para si:
- Se Luanda é aqui, então o norte também é aqui.
            Procurou na zona junto a Luanda o nome da sua terra, mas não encontrava.    Depois de pensar um pouco, lembrou-se que a sua professora dizia que eles viviam no Sul e que a Vila onde viviam, se chamava Bibala e pertencia ao distrito de Moçâmedes, embora se situasse mais perto do Lubango.
            Com essa informação na cabeça, correu o seu dedo pelo mapa abaixo e lá no fundo, encontrou outro ponto preto que dizia Moçâmedes.
            Procurando naquela zona o nome Bibala, não encontrou nada parecido.
            No dia seguinte, durante a aula de geografia, Carlos perguntou à sua professora:
-Senhora professora. O meu pai tem um mapa de Angola no seu escritório e eu andei à procura da nossa Vila mas não encontrei Bibala. Pode-me mostrar no mapa da escola onde fica Bibala?
            A professora respondeu:
- Muito bem Carlinhos, vejo que andas a estudar geografia. Fico muito contente. Então vamos lá ver o mapa. Anda cá e mostra o que encontraste.
Carlos foi junto ao quadro preto, onde se encontrava o mapa pendurado e apontou o ponto preto que dizia Moçâmedes e disse:
-Senhora professora, aqui é Moçâmedes não é? Mas Bibala não está cá?!...
A professora riu-se, acariciou a cabeça do aluno e disse:
-Muito bem Carlinhos. Aí é Moçâmedes e não encontras Bibala porque no mapa está escrito o outro nome da nossa Vila. Ora procura Vila Arriaga?
Continua

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012



Eterno Natal
14/12/2012

É Natal!...
Repicam os sinos santos.
Salmos são cantados,
Ouvindo-se em todos os cantos.
Um sonho feliz sonhado,
Com carinho e muita paz,
Num sentido integral.
Pão e carinho somado,
Com tudo o que nos apraz,
Neste eterno Natal.
Prendas e bons votos trocados,
Recordando o Deus Menino nascido.
Que deixe de haver sofrimento,
Nas crianças que vivem o momento,
Com grande dor e opressão;
Numa imensa solidão,
Sem qualquer alegria,
Por lhes faltar companhia.
O Deus Sol iluminado,
Assim chamado em tempos idos,
O menino também foi mimado.
É Natal!...
Festas, luzes de muitas cores,
Convidam ao consumo desenfreado.
Os brinquedos são uns amores
E tudo se consome,
Enquanto crianças morrem de fome.
Que o Deus menino nascido,
Nas palhinhas entre animais,
Lhes traga o bem merecido,
Ter pão, amor e muito mais.
Ter esperança e recíproca amizade,
Num Mundo de maior fraternidade,
É Natal!...
Um pinheirinho na sala montado,
Com bolinhas de muitas cores,
Procuram esquecer os coitados,
Que sem pão, passam horrores.
Se todos nascemos iguais,
 Num Mundo que nos é querido,
Que todos os dias sejam Natais,
Lembrando o menino nascido,
Que nos ensinou o perdão,
Com paz no coração.
É Natal!...
Jesus escolheu a pobreza,
Para ao Mundo se anunciar.
De uma coisa tinha a certeza,
As crianças são para amar.
Crianças de todo o Mundo,
Sem qualquer distinção,
Procuram bem lá no fundo,
Amar o seu irmão.
Rico, pobre ou desgraçado,
A criança é um bem precioso.
Necessita de ser resguardado,
Por um processo zeloso.
É Natal!...
Os jovens chamam a atenção,
De quem tem o poder,
Para Olhar pelo seu irmão,
Que com fome está a morrer.
É Natal!...
Nasceu o Deus menino,
Relembram os pensamentos,
Que nos deixou com carinho,
Parábolas com sentimentos,
Que nos mostram o caminho.
É Natal!...

Carlos Cebolo

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012


   
    VAZIO
    12/12/2012

Asa quebrada,
Num voo interrompido,
Um pouco do nada,
Neste Mundo sofrido.
Sentir sem sentires,
Ferida aberta no lamento,
De querer sem desistires,
Abolindo o sofrimento.
Nada é tudo o que tens!...
És alma magoada,
Na carícia dos desdéns,
Duma verdade adiada.
Na esperada ternura,
Da tua voz calada,
A passageira loucura,
De uma alma desesperada.
És vazio!...
Horizonte do nada,
O mar da solidão,
Clima sempre frio,
De promessa adiada,
Que sufoca o coração.
Neste mar vazio,
Afogas a ilusão,
Dum sofrimento tardio,
Na união da imperfeição.
Vazio sentimento,
No baú de memórias guardado,
Um amor sem sofrimento,
Em lembrança do passado.
Sem rumo, nem norte,
Sangram as asas quebradas,
Num rumo traçado pela sorte,
De sensações desamparadas.
Movimento oco das emoções,
Sentidas e sofridas na dor,
De um amor sem condições,
Em manter o seu calor.
Esse vazio sentido,
Do nada ser tudo o que se tem,
De um querer que se sente perdido,
E perdida te sentes também.
Ouves o prazer dos teus sentidos,
Na pele ainda sentes o desejo,
Dos belos momentos perdidos,
Na recordação de um doce beijo.

Carlos Cebolo




sexta-feira, 7 de dezembro de 2012


        
        BRECHA
          07/12/20\12

Percorro-te lentamente!...
Rasgo horizontes na noite crua,
Beijo os teus seios suavemente
E sinto a frieza que é só tua.
O meu prazer nos teus sentidos,
A brisa quente dos teus lábios,
Provocam em mim gemidos,
Que em ti, são sons baldios.
No silencio da noite escura,
Procuro a tua boca adormecida
E desta minha triste procura,
Não encontro a meta apetecida.
Sopram brisas de saudades,
De sensações sentidas no passado,
Que lembram eternidades,
Vividas com a chama do pecado.
O céu nebuloso de tons cinzentos,
Esconde o fogo da tua ternura,
Que perturba os meus sentimentos,
Na tua magia divina, pura e nua.
Abre-se uma brecha no meu coração,
Por te amar perdidamente,
Com amor louco de eterna paixão,
Que me faz querer-te eternamente.
Migalhas recebidas do teu consolo,
Em frias carícias do verbo amar,
Destroem todo o meu controlo,
Como as ondas perdidas do alto mar.
Brecha aberta e sentida,
Onde se mergulha no silêncio do nada,
Abre uma triste e nova ferida,
Na alma de pétalas adornada.
Quero sentir a tua voz ofegante,
No nosso delírio explosivo,
Sentir-te leoa provocante,
Em todos os sentidos sem motivo.
Continuar a minha viagem sem fim,
Pela brecha que ficou aberta,
Levar o teu corpo agarrado a mim,
Florir a tua doce alma deserta.

Carlos Cebolo

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012


LÁGRIMAS
03/12/2012

Um fluido aquoso escorre pelo rosto.
Desce lentamente pela face,
Penetra na boca e sente-se o seu gosto.
Salgado mar, com frescura de alface.
Deram-lhe o nome de lágrima!...
Delírio da loucura ardente,
O sabor acre da ousadia.
Símbolo de compaixão da vítima,
Que o nosso espírito sente, 
Com toda aquela fantasia.
Aquele líquido sedoso e salgado,
Mostra ao mundo a chama do pecado!
Da angústia na tristeza!
Da alegria sentida na beleza.
Líquido sedoso que a alma verte
E que todo o corpo sente,
Na tristeza e na alegria presente,
Que o rude coração derrete.
Quem gosta de ver chorar?
Ninguém!...
E quando se trata de dor,
Todos procuram sossegar,
O coração que não se contém,
Na perda do grande amor.
Pede-se ao coração que sossegue,
Na perda de tal sentimento,
A alma verte lágrimas de sangue,
Mostrando o seu sofrimento.
Na alegria também se chora,
Em qualquer época ou idade,
Seja qual for a boa hora,
Do encontro da felicidade.
Lágrimas de amor vertidas,
Na dor que o coração sente,
Em certas horas perdidas,
Do desejo e loucura ardente.
Chora-se de desejo e saudade,
Com lágrima nem sempre forçada,
Para combater a ansiedade,
De uma felicidade desejada.
Lágrimas do meu doce pranto,
Que dos teus olhos se faz brotar,
São lágrimas de puro encanto,
Que me fazem delirar.
No desejo e loucura ardente,
Do beijo do teu olhar,
É fogo que a alma sente,
Neste eterno lacrimal.

Carlos Cebolo

sábado, 24 de novembro de 2012



SABER AMAR
24/11/2012

Na solidão,
Abandonada,
Sem condição,
Um pouco do nada.
Rosto escondido,
Cabelos despenteados,
Coração ferido,
A alma aos bocados.
Encontrei-te só!
Soluçavas,
Teu aspecto metia dó!
Choravas.
Ergui-te do chão,
Abracei-te com sentimento,
Beijei a tua mão,
Amainei o teu sofrimento.
O meu pedido de desculpa,
Atingiu o teu coração,
Perdoaste a minha culpa,
Sem qualquer outra situação.
Magoei-te sem querer,
Por ter pensado ser pecado,
Dar e receber,
Mesmo sabendo estar errado.
Traumas do ser humano,
Por teimar sem saber,
Que no amor não há engano
E tudo se faz por o merecer.
Nesta tua solidão,
De dor e sofrimento,
Por erro sem ter perdão,
Ouves o meu lamento.
Tua alma altiva e sonhadora,
Mesmo com o coração ferido,
Mostra ser benfeitora
E libertas o que estava escondido.
Lágrimas que se ouviam,
De um coração que chorava,
Entre mãos que tremiam,
Num corpo que sonhava.
Tive medo de te perder,
Por várias vezes ter errado,
Ser perdoado sem o merecer,
Por muito ser amado.
Faz parte da Vida errar,
Na condição de ser humano,
Perdoar é saber amar,
No amor não há engano.

Carlos Cebolo


quarta-feira, 21 de novembro de 2012



Olhos Nos olhos
         21/11/2012

No teu olhar!...
Um chamamento de amor,
Que provoca em mim,
Um desejo de amar.

No ar, sinto o teu odor,
Um aroma fresco de jasmim.

Poisam os meus olhos nos teus
E vejo a tua perfumada alma,
Agarrada a mim na noite calma.

No teu olhar!...
Doce e penetrante,
Vivo todo o instante
E tempos do verbo amar.

Olhos nos olhos,
Navego pela tua alma
E sinto no teu sorriso,
A tua alma sempre acalma
E lágrimas nos teus olhos,
Que me fazem perder o juízo.

No toque do teu beijo,
Meu coração despertou
E sinto enorme desejo,
Na ansiedade que se gerou.

Teu olhar profundo,
Provoca em mim,
Delírio apaixonante
E suspiros sem fim;
Que me leva a um outro mundo,
Onde te vejo ofegante.

O teu olhar continua forte,
Penetrante,
Sensual.
O destino traça a sorte;
Solto um gemido alucinante
E sinto um cio animal.

O toque do teu beijo,
É o despertar dos sentidos,
O sussurro do coração,
Os avanços consentidos;
O clímax do desejo,
O satisfazer da paixão.

Nesta entrega delirante,
Onde tu e eu, somos um só,
Formamos o silêncio eterno
E as nossas almas apertam o nó.
Respiro o teu odor inebriante,
E adormeço no teu colo materno.

Olhos nos olhos,
Sinto o teu olhar.

Olhos nos olhos,
Sentes a minha dor.

Olhos nos olhos,
Mostras que queres amar.

Olhos nos olhos,
Mostro-te o meu amor.

Carlos Cebolo


segunda-feira, 19 de novembro de 2012



Amor Invernal
        19/11/2012

Chuva e dias cinzentos,
Impedem a minha alegria.

Conforto-me nos lamentos
E pensamentos de magia.

Chuva que molha o rosto,
Da minha amada à beira mar,
São lágrimas de desgosto,
Da alma triste a chorar.

Neste triste inverno da vida,
Sem aconchego e com dor,
Retarda a minha triste partida
Na esperança de encontrar o amor.
Amar, apenas por amar,
Sem se quer, ser amante,
No amor que se quer ofertar,
Sem receber ouro ou diamante.
O amor oferecido de graça,
Trocado apenas por amor,
É um belo estado de graça,
Sem causar qualquer dor.

Neste triste inverno chuvoso,
Tempo triste para amar,
Espera-se por algo radioso,
Para no futuro recordar.

No silêncio do tempo passado,
Angústias sentidas e sofridas,
Sinto-me também acorrentado,
Ao sofrimento de velhas feridas.
Este inverno cinzento, frio e triste,
De amores escondidos na escuridão,
Sinto que a alma ainda resiste,
No desespero e esperanças do coração.

O vento que sussurra e beija-me o rosto,
Carrega a chuva do meu forte lamento,
Que encharca a alma do triste desgosto,
Na lembrança de um belo sentimento.

A sede de amor no silêncio do imenso mar,
Dá asas à alma para poder voar,
Nas névoas frescas, da primaveril madrugada,
Que mergulha num mar de pérolas adornada.

Neste inverno húmido, triste e frio,
Oiço a tua voz na loucura calada,
Na doçura passageira do meu delírio,
Desta minha alma, por ti iluminada.
Este amor invernal de que padeço,
Sem sentir os teus lábios no meu beijo,
É duro presente que não mereço
E abafa o calor vulcânico do desejo.

Quero sentir-te nos beijos que te dou,
Ouvir uma canção em sons de felicidade,
Sentir o puro prazer de quem já amou,
No amor intenso que não escolhe a idade.

Carlos Cebolo