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Tudo o que quero e não posso, tudo o que posso mas não devo, tudo o que devo mas receio. Queria mudar o Mundo, acabar com a fome, com a tristeza, com a maldade.Promover o bem, a harmonia, intensificar o AMOR. Tudo o que quero mas não posso. Romper com o passado porque ele existe, acabar com o medo porque ele existe, promover o futuro que é incerto.Dar vivas ao AMOR. A frustração de querer e não poder!...Quando tudo parece mostrar que é possível fazer voar o sonho!...Quando o sonho se torna pesadelo!...O melhor é tapar os olhos e não ver; fechar os ouvidos e não ouvir;impedir o pensamento de fluir. Enfim; ser sensato e cair na realidade da vida, mas ficar com a agradável consciência que o sonho poderia ser maravilhoso!...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013



                             
                                    ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA

                                                               XII Parte
Laica gostava muito de ovos estrelados. Sempre que os novos donos se sentassem à mesa para o pequeno-almoço, Laica ia para junto deles e também tinha o seu pires com um ovo estrelado no canto da sala, onde normalmente comia.
Quando Carlos saia para o trabalho, Laica ficava à porta de casa e ladrava até o novo dono desaparecer da sua vista. Só depois é que se ia deitar na sua caminha, que ficava aos pés da cama dos donos.
Um dia, no fim das aulas, um aluno negro ficou para o fim. Carlos durante todo o dia tinha reparado que o aluno não estava bem. Havia qualquer coisa que o preocupava. Perguntou o que ele tinha, mas o Pascoal, assim se chamava o aluno, respondeu que não tinha nada.
O Pascoal era um bom aluno. Muito inteligente. Estava mesmo acima da média. E por isso Carlos ficou ainda mais preocupado, mas disfarçou e fingiu que nada se estava a passar.
Enquanto Carlos arrumava a sala para o dia seguinte, e na sala só se encontravam ele e o Pascoal, o aluno aproximou-se de Carlos e falou:
- Senhor professor. Eu tenho uma coisa para lhe contar!
Carlos fez uma festa na cabeça do aluno e perguntou:
- Diz lá amigo o que queres?
Pascoal encheu-se de coragem e disse:
- Senhor professor, ontem à noite na minha sanzala, apareceram umas pessoas que eu não conheço e estiveram a falar com os homens. Eles queriam vir prender o senhor professor. O meu pai foi contra e disse que o professor é boa pessoa. É amigo dos negros. Mas os homens diziam:
-O professor foi tropa portuguesa e por isso tem que ir embora ou vai preso.
O meu pai disse que isso não é suficiente, pois o seu filho mais velho, o Mesquita, tinha ido para a tropa com o professor e eram muito amigos. Desde crianças.
E o Pascoal continuou:
- Ouvi os homens dizerem que não há brancos bons.
Carlos agradeceu ao seu aluno e disse:
-Não te preocupes Pascoal. Eu não fiz mal a ninguém e por isso não tenho nada a recear. Contudo muito obrigado por me avisares!
O aluno saiu e Carlos fechou a escola e foi para casa como sempre fazia.
A guerra civil entre os movimentos que tinha começado em Luanda, tinha-se expandido por toda Angola. Vila Arriaga, apesar de ser uma pequena vila, não foi excepção.
 Quem não tinha nada a temer, como Carlos e sua família, mantiveram-se calmos a trabalhar.
Escola acabou por fechar por ordem da directora; as repartições públicas tinham fechado todas. Só o comércio se mantinha aberto, vendendo à população, o que ainda havia para comer.
Angola não tinha governo. Mandava quem estivesse a controlar a zona. Umas vezes o MPLA, outras vezes a UNITA ou a FNLA.
Mas todos pareciam ser unânimes numa coisa: Angola era deles e tudo o que lá havia também.
Os comerciantes eram obrigados a fornecer comida gratuita aos militares. Se no o fizessem sofriam represálias.
Como a força militar mais numerosa em Vila Arriaga era a do FNLA, a casa comercial mais forte, neste caso a casa Lauro Almeida Gonçalves, pertença da sogra de Carlos, foi a nomeada para fornecer comida a este movimento.
Carlos, com a escola fechada, passava o tempo a trabalhar na casa comercial da sua sogra.
                                                          XIII Parte
 A sogra de Carlos, tinha uma casa bastante rica. Era um comércio misto que vendia de tudo. Desde medicamentos a livros escolares, passando pela mercearia, roupas, perfumes, etc. Havia também uma secção de brinquedos e uma de ferragens agrícolas. Era a única do género naquela vila e concelho.
A loja era abastecida por um armazém que a sogra de Carlos fazia questão de estar sempre repleto de mercadoria. Era hábito que já vinha do seu falecido pai, fundador da casa comercial.
Uma vez por mês iam a Sá-da-Bandeira comprar mercadorias para a loja. Mas ultimamente, Sá-da-Bandeira já não tinha mercadoria para vender e a sogra de Carlos resolveu ir a Moçâmedes fazer compras para a loja.
No regresso, com a carrinha carregada, à saída de Moçâmedes, foram mandados parar por um controlo dos militares do MPLA.
O militar do MPLA que tinha mandado parar a carrinha, estava a implicar, pois queria descarregar a carrinha ali mesmo. Nisto apareceu o Comandante e depois de uma conversa com a sogra de Carlos, que lhe explicou para onde ia a mercadoria, o comandante repreendeu o militar e disse:
- Então tu não vês que estes camaradas estão a levar comida para o povo da Bibala? Tem juízo e vai lá para dentro!
O militar retirou-se contrariado e a carrinha seguiu o seu destino.
Nessa altura, o MPLA estava a controlar as cidades e vilas do Sul de Angola, zona onde se encontrava Vila Arriaga.
A verdade se diga, o MPLA era a força que tinha os comandantes mais bem preparados e o verdadeiro selo de povoamento. Brancos, mulatos e negros. Nos outros movimentos, os militares eram todos negros. Só na parte política é que tinham mulatos e brancos,
Com a guerra civil, os movimentos abandonaram a Vila e só lá apareciam em patrulha.
Se o MPLA controlasse aquela zona, a patrulha era desse movimento.
Se fosse a UNITA a controlar a zona, a patrulha seria da UNITA e assim por diante.
Desde modo, a população tinha que ter cartões dos três movimentos para mostrar nos diversos controlos existentes, conforme a cor de quem estava a controlar a zona.
Era a luta pela sobrevivência.
Poucos dias depois, logo pela manhã cedo, apareceu na Vila uma carrinha com militares. Pararam em frente à casa comercial onde ficava também a residência de Carlos que tinha a porta aberta, como sempre fazia, logo que acordava.
Carlos sem nada a temer, estava à porta de casa a ver a movimentação e curioso para saber o que se estava a passar.
Os militares desceram da carinha, entraram para dentro da casa de Carlos empurrando-o e perguntaram por armas.
Gritavam todos os mesmo tempo:
- Onde tens as armas? Onde estão guardadas? Ao mesmo tempo que disparavam as suas armas em direcção ao tecto da casa, que ficou todo esburacado.
Revistaram a casa toda, partiram móveis, levantaram os colchões, reviraram tudo. Mas como era de esperar, não encontraram qualquer arma.
 Carlos apenas tinha tido em tempos uma caçadeira, mas essa arma já tinha sido entregue, precisamente ao comandante do MPLA, numa altura em que ele andou de casa em casa a desarmar toda a gente. Até as pressões de ar que a sogra de Carlos tinha para vender na casa comercial, levaram.
Continua

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013



                 
                          ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA

                                                 X Parte
No dia seguinte Carlos e todos os seus camaradas, passaram à disponibilidade, a guerra tinha acabado. Julgavam eles. Mal sabiam que a verdadeira guerra iria começar.
Como angolano, Carlos ficou alegre, foi para a sua Vila, onde tinha a noiva e concorreu a um lugar de professor primário que havia em aberto na escola onde fez a primária.
O processo de Carlos foi aceite pelo governo provisório de Luanda e assim que saiu a sua colocação no Diário da Republica, Carlos começou a dar aulas em Vila Arriaga.
Carlos, assim como a grande maioria dos Angolanos, pensavam que tudo iria ficar na mesma. Angola apenas deixava de ser governada por portugueses e passava a ser governada por angolanos. Carlos sentia-se português, pois nunca teve qualquer outra nacionalidade e tinha sido tropa portuguesa, mas também era angolano por nascença.
Pensava que brancos, mulatos e negros, eram todos angolanos e Angola dava para todos. Por isso, pensou continuar em Angola.
Durante o primeiro ano, tudo correu dentro da normalidade. Carlos, foi leccionar a turma da terceira classe. Eram no total 20 alunos. Carlos preparou os alunos para a prova escrita de passagem para a 4ª classe.
No final do ano, Carlos levou os alunos a exame e dezasseis passaram para a quarta classe. Quatro não atingiram os objectivos.
Foi um resultado bastante positivo, mas Carlos ficou triste pelos quatro alunos que teriam de repetir o ano.
Carlos nunca pensou em sair da sua terra e como tinha um emprego que pensava ser estável, pois Angola necessitava de quadros, casou e formou a sua própria família.
A vida de Carlos era de casa para a escola e da escola para casa, não se metia em política, embora tivesse um fraco pela UNITA. Talvez por ser o movimento que se encontrava mais perto da sua zona de residência, já que os do norte, pouco ou nada lhe diziam.
Mas mesmo esse fraquinho que sentia pela UNITA, Carlos nunca deixou transparecer, pois sabia que tinha alunos cujos pais eram adeptos dos três movimentos e também alguns, nomeadamente brancos, que como Carlos, se sentiam portugueses.
Um dia em que o programa escolar mandava fazer um desenho da bandeira Nacional, Carlos viu desenhos com todas as bandeiras: Portuguesa: Do MPLA; da FNLA e da UNITA. E a todos deu a nota bom, sem fazer qualquer comentário.
O que Carlos sentia pela UNITA, era apenas simpatia e nada mais. Os seus símbolos sempre foram os portugueses desde que nascera e agora estava à espera que formassem novos símbolos, que representasse a nova Angola. Seriam esses os seus novos valores patrióticos, como Angolano que era de nascença, embora fosse português de coração.
Muitos portugueses abandonaram Angola em 1975, mas Carlos e sua família ficaram na terra onde tinham nascido. Nunca tinham feito mal a ninguém e não conheciam o chamado Portugal continental.
 Na escola onde dava aulas à terceira classe, havia o tão falado selo de povoamento de Marcelo Caetano, brancos, mulatos e negros. Todos eram tratados por igual.
No segundo ano, Carlos deveria dar aulas à quarta classe, mas não chegou a dar.
As eleições não chegaram a ser feitas e o Alto-comissário de Portugal para Angola, O tristemente conhecido Almirante Rosa Coutinho, o Almirante vermelho, pertencente ao partido comunista Português, deu a independência ao MPLA, embora a UNITA tivesse maior população.
                                             XI Parte
Com essa triste resolução deu início à terrível guerra civil Angolana.
Muito armamento soviético entrou em Angola e, com esse material, veio também muita tropa cubana para as fileiras do MPLA.
 A luta entre os partidos tinha começado e Angola entrava a ser completamente devastada.
O MPLA controlava grande parte de Angola, com excepção do leste, onde a Unita se tinha refugiado e dava luta ao MPLA apoiado pelos cubanos.
Os Estados Unidos da América, resolvem então apoiar a UNITA e, para além de mandarem armamento, solicitaram também o apoio militar da África do Sul que entrou em Angola com o seu batalhão Búfalo para ajudar a UNITA.
A força sul-africana e as tropas da UNITA, rapidamente tomaram novamente conta de grande parte do território de Angola, só parando à entrada de Luanda.
Neste ano de 1976, havia eleições nos Estados Unidos da América e a força da África do Sul, estava à espera de ordens para entrar em Luanda e tomar a cidade.
Corria o rumor em Angola, que tudo seria decidido depois das eleições dos Estados Unidos. Se ganhassem os republicanos que estavam no poder, a força sul-africana tomaria Luanda, mas se ganhassem os democratas, a força sul-africana retiraria e abandonava a UNITA.
Savimbi garantia que iria tomar Luanda, mas o que aconteceu foi precisamente o contrario.
Nos Estados Unidos, ganhou as eleições o democrata Jimmy Cárter e as forças sul-africanas saíram de Angola.
Com a retirada dos sul-africanos, a UNITA recuou até ao seu território natural, o leste de Angola.
A partir do leste, a UNITA continuou a dar luta ao MPLA, mas desta vez, em vez de guerra clássica, manteve a guerra de guerrilha que durou até à morte de Savimbi em 2002.
Nenhum departamento governamental estava a funcionar e as escolas não eram excepção. Estava tudo parado.
Um casal amigo da família de Carlos, funcionário do governo português em Angola, recebeu ordens para regressar a Portugal. Esse casal, com muita mágoa, arrumou as suas coisas e foram para Moçâmedes, onde estava um navio português à espera dos muitos funcionários que abandonavam Angola.
Este casal, tinha uma cadelinha pequena, com o pelo branco e preto. Era da raça que em Angola se chamava de Bambi. A cadelinha era muito linda e meiga. O casal passou por Vila Arriaga a caminho de Moçâmedes e deu a cadelinha à família de Carlos, uma vez que não a podia levar para Portugal.
Com lágrimas nos olhos, entregaram a cadelinha e pediram que tivesse com ela muito amor e cuidado. A cadelinha era para eles, como uma filha.
A senhora, ao entregar a cadelinha disse:
- Por favor, tenham cuidado. Não a deixem engravidar, pois ela tem o útero muito estreito e não pode ter filhos. Cuidem dela. E se um dia tiverem de sair de Angola, por favor não a deixem abandonada.
A família de Carlos agradeceu ao casal amigo, despediram-se com grande emoção e pegaram a cadelinha ao colo. O nome desta cadelinha era Laica.
Como Carlos se tinha casado há relativamente pouco tempo, a Laica foi adoptada como uma filha e passou a ser a alegria da casa. A cadelinha agradecida, ou por ser da sua própria natureza, aceitou muito bem a mudança de donos e rapidamente se adaptou à nova casa.
Continua

domingo, 20 de janeiro de 2013



                   
                    ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA     
                                                        IX Parte
 A partir desse dia e durante o tempo que Carlos estive em Calamboloca, a mulher foi sempre a lavadeira de Carlos, do outro furriel e do alferes do pelotão de Carlos que também ainda não tinham lavadeira.
Nesse período a secção de Carlos fez protecção ao comboio que ia para Malange, sem nunca ter sequer dado um tiro. Nunca houve qualquer contacto com o chamado inimigo, apesar do comboio ir sempre à pinha e Carlos ter conhecimento de, de vez em quando haver conflitos no mesmo.
Numa patrulha apeada que o pelotão de Carlos fez pela zona, apenas encontrou no meio da mata vestígios já antigos de pequenos acampamentos dos chamados turras, mas nada recente.
Na realidade, tudo indicava que em Dezembro de 1973, a guerra estava realmente ganha pelo exército português no norte de Angola.
Quando regressou à fazenda tentativa e se juntou á sua companhia, Carlos pensou que iria ficar por ali até ao fim do seu tempo militar. Mas não. Pouco depois a companhia recebe ordens para ir para o Sul. Destino Pereira D’Eça, junto à fronteira com a Namíbia.
Em Pereira D’Eça, Carlos estava praticamente em casa, pois a sua cidade Sá-da-Bandeira, ficava relativamente perto.
Nesta zona de Angola, não havia guerra, a companhia de Carlos foi ali colocada como prevenção contra a SWAPO.
SWAPO era o movimento de libertação da Namíbia que, segundo informações dadas pelos sul-africanos, apoiava a UNITA e esta apoiava a SWAPO. Assim Carlos fez várias vezes patrulhas junto à fronteira sem nunca ter qualquer contacto quer com um, quer com outro grupo de guerrilheiros.
É aqui, em Pedreira D’Éça que Carlos ouve a notícia de ter havido um golpe de Estado em Portugal, e que os militares conhecidos como o grupo dos capitães, chefiados no terreno por Salgueiro Maia, tinham tomado conta do poder e que Marcelo Caetano, primeiro ministro de Portugal que tinha sucedido a Salazar, tinha fugido para o Brasil.
Dias depois, os movimentos, que até aí, estavam completamente destroçados, reorganizaram-se e começaram a entrar em Angola, sem qualquer intervenção militar portuguesa e, começou a grande confusão.
Os movimentos eram três, A FNLA de Holden Roberto; O MPLA de Agostinho Neto e a UNITA de Jonas Savimbi. Todos queriam tomar conta dos quartéis portugueses e ficar com o armamento português.
Havia ordens do Alto-comissário de Portugal para Angola, o senhor Almirante Rosa Coutinho, para não se oferecer resistência aos movimentos e que Portugal estava a negociar a entrega pacífica das províncias aos respectivos movimentos.
Como em Angola havia três movimentos, estava-se a preparar tudo para haver eleições democráticas, controladas por Portugal.
Um dia, aparece no quartel em Pereira D’Eça, uma delegação da UNITA, chefiada por um tal Vaculucuta que foi falar com o capitão para fazerem uma mudança de poderes. Carlos não sabe o que se passou, mas sabe o que o seu capitão fez e muito bem.
O capitão da companhia de Carlos, não estava na disposição de entregar a sua companhia aos movimentos de libertação.
Assim, mandou reunir a companhia e em coluna militar segui para Sá-da-Bandeira, onde entregou a companhia com todo o material e pessoal aos seus superiores do RI nº 22.

                                              X Parte
No dia seguinte Carlos e todos os seus camaradas, passaram à disponibilidade, a guerra tinha acabado. Julgavam eles. Mal sabiam que a verdadeira guerra iria começar.
Como angolano, Carlos ficou alegre, foi para a sua Vila, onde tinha a noiva e concorreu a um lugar de professor primário que havia em aberto na escola onde fez a primária.
O processo de Carlos foi aceite pelo governo provisório de Luanda e assim que saiu a sua colocação no Diário da Republica, Carlos começou a dar aulas em Vila Arriaga.
Carlos, assim como a grande maioria dos Angolanos, pensavam que tudo iria ficar na mesma. Angola apenas deixava de ser governada por portugueses e passava a ser governada por angolanos. Carlos sentia-se português, pois nunca teve qualquer outra nacionalidade e tinha sido tropa portuguesa, mas também era angolano por nascença.
Pensava que brancos, mulatos e negros, eram todos angolanos e Angola dava para todos. Por isso, pensou continuar em Angola.
Durante o primeiro ano, tudo correu dentro da normalidade. Carlos, foi leccionar a turma da terceira classe. Eram no total 20 alunos. Carlos preparou os alunos para a prova escrita de passagem para a 4ª classe.
No final do ano, Carlos levou os alunos a exame e dezasseis passaram para a quarta classe. Quatro não atingiram os objectivos.
Foi um resultado bastante positivo, mas Carlos ficou triste pelos quatro alunos que teriam de repetir o ano.
Carlos nunca pensou em sair da sua terra e como tinha um emprego que pensava ser estável, pois Angola necessitava de quadros, casou e formou a sua própria família.
A vida de Carlos era de casa para a escola e da escola para casa, não se metia em política, embora tivesse um fraco pela UNITA. Talvez por ser o movimento que se encontrava mais perto da sua zona de residência, já que os do norte, pouco ou nada lhe diziam.
Mas mesmo esse fraquinho que sentia pela UNITA, Carlos nunca deixou transparecer, pois sabia que tinha alunos cujos pais eram adeptos dos três movimentos e também alguns, nomeadamente brancos, que como Carlos, se sentiam portugueses.
Um dia em que o programa escolar mandava fazer um desenho da bandeira Nacional, Carlos viu desenhos com todas as bandeiras: Portuguesa: Do MPLA; da FNLA e da UNITA. E a todos deu a nota bom, sem fazer qualquer comentário.
O que Carlos sentia pela UNITA, era apenas simpatia e nada mais. Os seus símbolos sempre foram os portugueses desde que nascera e agora estava à espera que formassem novos símbolos, que representasse a nova Angola. Seriam esses os seus novos valores patrióticos, como Angolano que era de nascença, embora fosse português de coração.
Muitos portugueses abandonaram Angola em 1975, mas Carlos e sua família ficaram na terra onde tinham nascido. Nunca tinham feito mal a ninguém e não conheciam o chamado Portugal continental.
 Na escola onde dava aulas à terceira classe, havia o tão falado selo de povoamento de Marcelo Caetano, brancos, mulatos e negros. Todos eram tratados por igual.
No segundo ano, Carlos deveria dar aulas à quarta classe, mas não chegou a dar.
As eleições não chegaram a ser feitas e o Alto-comissário de Portugal para Angola, O tristemente conhecido Almirante Rosa Coutinho, o Almirante vermelho, pertencente ao partido comunista Português, deu a independência ao MPLA, embora a UNITA tivesse maior população.
Continua

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013


              
             ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA                               
                                                     VIII Parte
Pela rádio Brazavil, ouvia-se que os dirigentes do MPLA e da FNLA com o apoio de outros governantes africanos, estavam constantemente em reuniões com governos europeus para resolveram o problema da presença portuguesa em África.
Todos os países de África ocupados pelos europeus, já tinham a independência, menos os territórios ocupados pelos portugueses.
Terminada a campanha em Sanza Pombo, a companhia de Carlos foi para o Caxito e ficou colocada na Fazenda Tentativa.
A fazenda Tentativa era uma fazenda agrícola que em tempos idos, cultivava entre outras coisas, cana-de-açúcar e bananas. No seu tempo áureo, deveria ser uma grande fazenda e muito importante na economia de Angola, pois até caminho-de-ferro tinha. Estava desactivada, mas as bananeiras davam boa fruta.
Sempre que os militares passassem pelo campo de bananeiras, apanhava cachos de bananas que serviam para enriquecer a alimentação das tropas, composta principalmente por ração de combate.
 A tropa portuguesa sabia que os turras faziam o mesmo, mas mesmo assim, nunca houve qualquer contacto entre eles.
Havia suspeitas que os turras, por conhecer muito melhor o terreno que as tropas portuguesas, controlavam a movimentação das tropas e evitavam assim o contacto directo.
Isto era mais uma amostra de que os chamados turras estavam em decadência militar.
Nesse período, a companhia de Carlos também era uma das responsável pela segurança da Barragem das Mabubas , onde havia um complexo industrial eléctrico que fornecia electricidade a Luanda.
Carlos era o furriel mais antigo da Companhia e por tal motivo, pertencia ao primeiro pelotão, onde chefiava a primeira secção.
O pelotão de Carlos foi destacado para Calamboloca,
Carlos não sabia a importância que tinha aquela povoação. Mas quando lá chegou, soube que era a terra do já lendário Comandante supremo do MPLA, o Dr. Agostinho Neto. Isto por si só, já era motivo suficiente para se ter respeito, pois pensava-se que na sua terra natal o líder teria mais apoios e a luta seria com certeza mais activa.
Mas não. Da tal luta armada apenas se ouvia falar, que em tempos passados aquela zona teria sido terrível, mas hoje, com a psico utilizada pelo exército português, estava uma zona normal.
Nas várias patrulhas que a secção de Carlos fez naquela zona, sempre encontrou população amiga e sempre pronta a ajudar.
Numa dessas patrulhas, Carlos passou por uma sanzala que ficava perto do quartel. Aí, uma mulher com uma criança ao colo, foi até Carlos e pediu se lhe podia dar algo para comer.
Carlos não só deu a sua ração de combate, como também perguntou se ela queria ser a sua lavadeira.
A mulher aceitou de imediato e no dia seguinte estava junto à vedação de arame farpado do quartel à procura de Carlos.
Carlos foi ter com ela e entregou-lhe apenas uma camisa e um par de calças civis e roupa interior. Carlos tinha mais roupa suja, mas quis assim experimentar se a mulher seria ou não de confiança.
Dois dias depois a mulher aparece com a roupa lavada e passada. Carlos viu que estava tudo em ordem e pagou à mulher o que ela pediu pelo trabalho.
                                              IX Parte
 A partir desse dia e durante o tempo que Carlos estive em Calamboloca, a mulher foi sempre a lavadeira de Carlos, do outro furriel e do alferes do pelotão de Carlos que também ainda não tinham lavadeira.
Nesse período a secção de Carlos fez protecção ao comboio que ia para Malange, sem nunca ter sequer dado um tiro. Nunca houve qualquer contacto com o chamado inimigo, apesar do comboio ir sempre à pinha e Carlos ter conhecimento de, de vez em quando haver conflitos no mesmo.
Numa patrulha apeada que o pelotão de Carlos fez pela zona, apenas encontrou no meio da mata vestígios já antigos de pequenos acampamentos dos chamados turras, mas nada recente.
Na realidade, tudo indicava que em Dezembro de 1973, a guerra estava realmente ganha pelo exército português no norte de Angola.
Quando regressou à fazenda tentativa e se juntou á sua companhia, Carlos pensou que iria ficar por ali até ao fim do seu tempo militar. Mas não. Pouco depois a companhia recebe ordens para ir para o Sul. Destino Pereira D’Eça, junto à fronteira com a Namíbia.
Em Pereira D’Eça, Carlos estava praticamente em casa, pois a sua cidade Sá-da-Bandeira, ficava relativamente perto.
Nesta zona de Angola, não havia guerra, a companhia de Carlos foi ali colocada como prevenção contra a SWAPO.
SWAPO era o movimento de libertação da Namíbia que, segundo informações dadas pelos sul-africanos, apoiava a UNITA e esta apoiava a SWAPO. Assim Carlos fez várias vezes patrulhas junto à fronteira sem nunca ter qualquer contacto quer com um, quer com outro grupo de guerrilheiros.
É aqui, em Pedreira D’Éça que Carlos ouve a notícia de ter havido um golpe de Estado em Portugal, e que os militares conhecidos como o grupo dos capitães, chefiados no terreno por Salgueiro Maia, tinham tomado conta do poder e que Marcelo Caetano, primeiro ministro de Portugal que tinha sucedido a Salazar, tinha fugido para o Brasil.
Dias depois, os movimentos, que até aí, estavam completamente destroçados, reorganizaram-se e começaram a entrar em Angola, sem qualquer intervenção militar portuguesa e, começou a grande confusão.
Os movimentos eram três, A FNLA de Holden Roberto; O MPLA de Agostinho Neto e a UNITA de Jonas Savimbi. Todos queriam tomar conta dos quartéis portugueses e ficar com o armamento português.
Havia ordens do Alto-comissário de Portugal para Angola, o senhor Almirante Rosa Coutinho, para não se oferecer resistência aos movimentos e que Portugal estava a negociar a entrega pacífica das províncias aos respectivos movimentos.
Como em Angola havia três movimentos, estava-se a preparar tudo para haver eleições democráticas, controladas por Portugal.
Um dia, aparece no quartel em Pereira D’Eça, uma delegação da UNITA, chefiada por um tal Vaculucuta que foi falar com o capitão para fazerem uma mudança de poderes. Carlos não sabe o que se passou, mas sabe o que o seu capitão fez e muito bem.
O capitão da companhia de Carlos, não estava na disposição de entregar a sua companhia aos movimentos de libertação.
Assim, mandou reunir a companhia e em coluna militar segui para Sá-da-Bandeira, onde entregou a companhia com todo o material e pessoal aos seus superiores do RI nº 22.
Continua 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013


                     
                    LUANA
(Em memória da minha querida gata)

Desnuda-me a alma quando penso em ti!...
No tormento da noite, pensei e chorei.
Morte, solidão, o silêncio que senti
E no meu imaginário, por ti procurei.

Se eu soubesse que seria a última vez!...
Que te ouvia miar e admirava o teu olhar,
Guardava cada gesto da tua nobre altivez
E procurava agora, com carinho recordar.

No horizonte do nada, vejo o teu olhar!
O brilho do horizonte da minha alegria,
Neste nosso eterno e triste caminhar.

A minha alma grita em arrepios de ternura,
Procurando encontrar o doce toque da magia,
De te poder ver aparecer na noite escura.

Carlos Cebolo

domingo, 13 de janeiro de 2013



               ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA                                                
                                                            VI I Parte
Junto a esses aldeamentos, a população tinha as suas lavras, nomeadamente de milho, batata-doce (cará) e mandioca. E era chefiada por um soba nomeado pela própria população, a quem as autoridades portuguesas pediam responsabilidades era considerada população amiga.
Toda a lavra encontrada fora das zonas destinadas a esses aldeamentos, era destruída, pois entendia-se que eram lavras ilegais para alimentar os turras.
Carlos, por ser a primeira vez que tinha directamente responsabilidades pela guarda e transporte de tanto dinheiro, levava a saca a tiracolo, junto ao seu peito e nunca abandonou a viatura.
Felizmente, a viagem correu sem qualquer incidente, mas Carlos só sossegou quando entregou ao 1º sargento e ao capitão, o dinheiro que trazia.
Assim, passou Carlos o tempo da sua vida militar no Norte de Angola, na zona de Quicua.
Todos os dias, às vinte e uma horas, Carlos e os seus camaradas furriéis, que dormiam na mesma tenda, ouviam num pequeno rádio que Carlos tinha, as notícias da rádio Brazavil, que transmitia em Português.
Ouvir a rádio Brazavil era proibido, mas naquele fim do Mundo não havia PIDE e todos estavam sossegados.
 Foi aí que Carlos soube que a final, os terroristas não eram terroristas, mas sim movimentos de libertação do território Angolano, que lutavam contra o jugo de Portugal.
Também ouvia que afinal os ditos movimentos tinham uma organização política por de trás dos militares e que um tal Holden Roberto era o comandante supremo da FNLA e que do lado do MPLA havia uma cúpula política encabeçada por Mário Pinto de Andrade e pelo Doutor Agostinho Neto, médico formado em Portugal.
As cúpulas políticas destes dois movimentos não se davam bem e esse sentimento era passado para os militares operacionais. Deste modo, sempre que se encontravam, havia lutas entre eles. Por aqui se via que ambos queriam a qualquer custo, chamar o protagonismo para si, ignorando o outro.
Durante a permanência de Carlos como militar, na zona então considerada crítica, por se encontrar muito perto da fronteira com o Zaire, a tropa portuguesa não deu, nem ouviu qualquer tiro e não houve qualquer contacto com os chamados inimigos.
 Apenas se via de vez em quando, umas minas anti-carro, enterrado na picada. Sinal que os turras andavam por ali.
 Mas nem esta forma de luta, utilizada pelos homens da FNLA ou do MPLA, era eficaz, pois as minas eram colocadas durante a noite, à pressa e de forma deficiente, em zonas de grande inclinação, nomeadamente em morros e, com a chuva que naquela zona era constante, no outro dia de manhã, os referidos artefactos militares ficavam a descoberto e eram facilmente detectáveis.
Isto só vinha reforçar o que a propaganda portuguesa dizia.
A rádio portuguesa quando falava da luta armada, salientava sempre que os turras em termos militares, estavam completamente inoperacionais no norte de Angola, baseando a sua fraca acção em palestras políticas no estrangeiro, com o propósito de poder haver, por parte dos países, nomeadamente africanos, mas também europeus, uma possível pressão política sobre Portugal.
Dizia a propaganda política portuguesa que tudo não passava de manobras para meterem as mãos nas grandes riquezas que o solo e o subsolo Angolano tinha.
Continua 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013




                                           
                                                      VI Parte
Durante a semana que Carlos esteve em Luanda, aproveitou para conhecer a cidade. E para isso nada melhor do que andar a pé.
Luanda era nessa altura, uma cidade bastante grande e com muito movimento. Carlos para não se perder, procurou circular pelas principais avenidas, ruas e praças, sempre com um ponto de referência. O bastante alto prédio do Banco comercial de Angola e a Fortaleza. Eram estes os dois pontos de referência de Carlos. Assim, conheceu um pouco de Luanda.
Uma semana depois, a companhia recebe ordens para avançar em coluna para o norte, com destino a Sanza Pombo e daí para Quicua, onde iria render uma companhia de militares açorianos, cujo objectivo era proteger a engenharia militar que andava naquela zona a abrir estradas pela mata a dentro, e ao mesmo tempo, fazer uma ocupação efectiva do território, obrigando os grupos armados terroristas a recuarem para além das fronteiras de Angola.
A companhia militar de Carlos, era móvel e por tal motivo, não tinha poiso certo, nem instalações fixas. Eram montadas tendas grandes, onde o pessoal dormia. Por isso, sempre que o capitão ordenava a montagem de um acampamento, era feita uma grande clareira na mata. Eram montados os holofotes alimentados por geradores, em todo o redor do acampamento e havia uma guarda permanente.
Como não havia campo de poiso para a avioneta que fazia os abastecimentos de víveres para a tropa, Uma vez de quinze em quinze dias, a avioneta passava e deixava cair do ar, em pleno voo, os sacos com os produtos alimentares e com o correio. Deste modo, quando os sacos batiam no chão, arrebentavam e o que vinha lá dentro espalhava-se pela pequena clareira aberta para o efeito.
 Os militares recolhiam os pedaços de alimento, nomeadamente à base de frango que depois de lavados com a pouca água que havia, pois a mesma era recolhida nos riachos próximos que tinham água corrente, era depois tudo cozinhado com massa ou arroz, para matar a fome a toda a companhia.
Não havia aqui distinção entre soldados, sargentos e oficiais. Todos comiam da mesma comida. Estilhaços de frango com massa ou com arroz.
Normalmente, o dinheiro para pagar aos militares da companhia, vinha juntamente com o dinheiro do destacamento de Quicua, pois era bastante perigoso ir apenas um destacamento pequeno, levantar quantias tão grandes ao Batalhão de Sanza Pombo. Dizia-se que já tinha havido no passado, ataques dos turras com intenção de roubarem o dinheiro.
No final do mês, o Capitão ordenou a Carlos que fosse com os seus homens e integrasse a coluna de Quicua, que ia a Sanza Pombo levantar o dinheiro e que trouxesse o dinheiro da companhia.
Carlos escolheu os seus melhores homens, por sinal todos negros e integrou a coluna militar. Em Sanza Pombo dormiu essa noite no batalhão e no dia seguinte regressou a Quicua na coluna militar.
No caminho, a coluna parou junto a um aldeamento e a população ofereceu aos militares garrafas de Marufo. Murufo é um vinho artesanal, feito da seiva da palmeira e em troca os militares deram ração de combate.
Esses aldeamentos. Eram um conjunto de habitações feitas em barro e cobertas com colmo e folhas de palmeira, onde o exército português acantonava a população civil negra, acabando com as sanzalas dispersas que antigamente havia por toda Angola.

                                                 VI I Parte
Junto a esses aldeamentos, a população tinha as suas lavras, nomeadamente de milho, batata-doce (cará) e mandioca. E era chefiada por um soba nomeado pela própria população, a quem as autoridades portuguesas pediam responsabilidades era considerada população amiga.
Toda a lavra encontrada fora das zonas destinadas a esses aldeamentos, era destruída, pois entendia-se que eram lavras ilegais para alimentar os turras.
Carlos, por ser a primeira vez que tinha directamente responsabilidades pela guarda e transporte de tanto dinheiro, levava a saca a tiracolo, junto ao seu peito e nunca abandonou a viatura.
Felizmente, a viagem correu sem qualquer incidente, mas Carlos só sossegou quando entregou ao 1º sargento e ao capitão, o dinheiro que trazia.
Assim, passou Carlos o tempo da sua vida militar no Norte de Angola, na zona de Quicua.
Todos os dias, às vinte e uma horas, Carlos e os seus camaradas furriéis, que dormiam na mesma tenda, ouviam num pequeno rádio que Carlos tinha, as notícias da rádio Brazavil, que transmitia em Português.
Ouvir a rádio Brazavil era proibido, mas naquele fim do Mundo não havia PIDE e todos estavam sossegados.
 Foi aí que Carlos soube que a final, os terroristas não eram terroristas, mas sim movimentos de libertação do território Angolano, que lutavam contra o jugo de Portugal.
Também ouvia que afinal os ditos movimentos tinham uma organização política por de trás dos militares e que um tal Holden Roberto era o comandante supremo da FNLA e que do lado do MPLA havia uma cúpula política encabeçada por Mário Pinto de Andrade e pelo Doutor Agostinho Neto, médico formado em Portugal.
As cúpulas políticas destes dois movimentos não se davam bem e esse sentimento era passado para os militares operacionais. Deste modo, sempre que se encontravam, havia lutas entre eles. Por aqui se via que ambos queriam a qualquer custo, chamar o protagonismo para si, ignorando o outro.
Durante a permanência de Carlos como militar, na zona então considerada crítica, por se encontrar muito perto da fronteira com o Zaire, a tropa portuguesa não deu, nem ouviu qualquer tiro e não houve qualquer contacto com os chamados inimigos.
 Apenas se via de vez em quando, umas minas anti-carro, enterrado na picada. Sinal que os turras andavam por ali.
 Mas nem esta forma de luta, utilizada pelos homens da FNLA ou do MPLA, era eficaz, pois as minas eram colocadas durante a noite, à pressa e de forma deficiente, em zonas de grande inclinação, nomeadamente em morros e, com a chuva que naquela zona era constante, no outro dia de manhã, os referidos artefactos militares ficavam a descoberto e eram facilmente detectáveis.
Isto só vinha reforçar o que a propaganda portuguesa dizia.
A rádio portuguesa quando falava da luta armada, salientava sempre que os turras em termos militares, estavam completamente inoperacionais no norte de Angola, baseando a sua fraca acção em palestras políticas no estrangeiro, com o propósito de poder haver, por parte dos países, nomeadamente africanos, mas também europeus, uma possível pressão política sobre Portugal.
Dizia a propaganda política portuguesa que tudo não passava de manobras para meterem as mãos nas grandes riquezas que o solo e o subsolo Angolano tinha.


terça-feira, 8 de janeiro de 2013



                   ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA
                                                         V PATE
Em Janeiro de 1972, foi para Nova Lisboa, para a Escola de Sargentos Milicianos, onde tirou o curso.
Durante o curso de Sargentos milicianos, Carlos ouviu falar que na realidade havia uma luta armada entre o exército português, do qual fazia parte e os turras. E que os turras não passavam de bandos armados pelo estrangeiro que queriam tirar Angola aos portugueses para serem eles a explorar as suas riquezas.
Como Carlos não percebia nada de política, assim como a grande maioria dos seus colegas, mentalizou-se que a luta era necessária para libertar Angola das forças estrangeiras que a invadiam.
Para Carlos, Angola era e sempre seria, província portuguesa. Nunca conheceu outra bandeira a não ser a das quinas e nunca cantou outro hino que não fosse a portuguesa Aliás, símbolos pelos quais sempre teve muito orgulho.
Contudo, como Carlos também pensava pela sua cabeça e não pela cabeça dos outros, apercebeu-se que algo mais sério se passava. Os turras não podiam ser apenas bandos armados sem qualquer organização. Se assim fosse, não resistiam tanto tempo a um exército poderoso e bem armado como era o exército português.
Também já na tropa, Carlos pelos poucos jornais que lia, apercebeu-se que a província era muito rica em diamantes e petróleo e daí a cobiça dos países estrangeiros, nomeadamente a União Soviética e os Estados Unidos da América. E que eram estes países que armavam os turras.
Pela informação que tinha, a América do Norte armava os turras da FNLA e a União Soviética, que era comunista, armava o MPLA.
Depois da recruta e da especialidade de atirador, Carlos foi para Sá-da-Bandeira, para o Regimento de Infantaria nº 22, onde deu três recrutas antes de rumar com destino ao Norte de Angola, nomeadamente para a zona de Sanza Pombo, junto à fronteira com o Zaire.
Durante o tempo que esteve em Sá-da-Bandeira, em conversa com outros furriéis e Alferes, que pouco ou quase nada também sabiam sobre a luta armada, ouviu o nome de MPLA; FNLA e UNITA, mas sempre designados por turras. Nunca se ouvia falar em Movimentos de Libertação.
Sabia que a Unita operava no leste de Angola e era o movimento que estava mais activo. E dizia-se que o Savimbi tinha sido da UPA e depois deixou a UPA para formar a UNITA com apoios portugueses.
O MPLA e a FNLA ou UPA, operavam no Norte de Angola, mas estavam praticamente derrotados.
Quando o capitão que ia comandar a companhia com o nº 1305/72, onde Carlos estava inserido como furriel do 1º pelotão se reuniu com os restantes oficiais e sargentos para comunicar para onde se dirigiam, é que ouviu da boca do capitão que iam para uma zona cuja operacionalidade hostil era da responsabilidade repartida entre o MPLA e a FNLA. Mas que para nós, pouco nos importava que fosse um ou outro. O importante era defender o território português.
Assim, Carlos e os seus companheiros, militares portugueses, todos com excepção dos oficiais, nascidos em Angola, brancos, mulatos, e negros, todos companheiros da mesma aventura, rumaram, como primeiro destino, o Grafanil em Luanda, onde seria formada a companhia com todos os seus quadros militares e administrativos.
Continua

domingo, 6 de janeiro de 2013





                         ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA
                                         

                                                      IV Parte
A grande maioria dos pais, metiam os filhos na mocidade portuguesa, não por ideias políticas, mas sim por medo de serem perseguidos pela PIDE. Pois quem não tinha os filhos na mocidade era considerado contra o governo de Salazar e como tal, eram indesejáveis à sociedade.
Era o primeiro passo para serem perseguidos.
Na escola de Carlos, tudo corria bem. Depois das aulas Carlos como membro da mocidade portuguesa, ia com os seus camaradas para a sede da organização, onde havia entre outras coisas, aulas de ginástica. Uma manhã, sem qualquer aviso, apareceram uns senhores de fato e gravata na escola e levaram o professor Cecílio Moreira, seu encarregado de educação e chefe da Mocidade, com eles.
A notícia espalhou-se como uma bomba. O professor Cecílio, muito respeitado por todos, tinha sido preso pela PIDE.
Quando Carlos necessitava que o seu encarregado de educação assinasse algum teste escrito que tinha recebido, Carlos ia à cadeia para falar com o professor Cecílio.
O professor Cecílio Moreira, sempre muito amável, explicou a Carlos, que não era conveniente continuar a ser o seu encarregado de educação, uma vez que poderia trazer complicações tanto para o pai de Carlos, como para o próprio Carlos.
Durante as férias, apareceram em Vila Arriaga, uns senhores que se reuniram com o administrador e fizeram perguntas a várias pessoas do Vila e também ao Carlos e ao seu pai.
Depois desse dia, o pai de Carlos foi a Moçâmedes, falou com outro seu amigo, de nome Dantas, que também trabalhava na Escola, mas na secretaria, para passar a ser o encarregado de educação de Carlos.
Carlos nunca mais ouviu falar do bom professor Cecílio. Nem ninguém sabia do seu paradeiro.
Os anos foram passando, a vida corria com normalidade. Ouvia-se de vez em quando notícias da luta armada contra os turras e que estes estavam completamente derrotados em Angola. Só no norte de Moçambique e na Guine é que ainda havia alguma luta.
Carlos fez o ciclo preparatório em Moçâmedes e como o seu avô estava doente, seu pai pediu a sua transferência para Sá-da-Bandeira, cidade que ficava apenas a cinquenta quilómetros da Vila onde viviam os pais de Carlos.
Em Sá-da Bandeira, estudou na Escola Industrial e comercial Artur de Paiva, onde completou o curso comercial.
Durante os seus estudos na EICAP, Carlos não ouvi falar em guerra ou em guerrilha.
Tudo parecia estar normal.
 Ninguém tinha medo dos turras ou da guerra. Mas todos tinham medo da PIDE. E talvez por causa disso, é que ninguém se importava com a política. Apenas sabiam que a luta no norte de Angola era cada vez mais fraca e só esporadicamente, se ouvia dizer que no Leste ainda havia luta contra os turras, mas que os militares estavam a ganhar terreno. Os terroristas estavam cada vez mais fracos e muito em breve seriam definitivamente derrotados.
  Como no Sul de Angola e, principalmente em toda a sua zona costeira até Luanda, se circulava sem qualquer problema e com grande liberdade de movimentos, Carlos nunca mais se preocupou com tal assunto. E como sabia que a PIDE prendia qualquer pessoa, sem qualquer motivo, como tinha acontecido com o seu professor em Moçâmedes, facto que nunca falou com ninguém, mas também nunca esqueceu, tinha medo que a ele ou ao seu pai, viesse acontecer o mesmo.
Como qualquer jovem da sua idade, Carlos também namorava e, entre promessas de amor eterno e casamento, a vida só fazia sentido em Angola. Nunca foi sequer imaginado viver noutro lado, até porque tanto Carlos, como a namorada, não conheciam qualquer outro país.
Chegou altura de Carlos ir para a tropa.
Continua

sábado, 5 de janeiro de 2013



                          ANOS CONTURBADO DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA                                             
                                                       III Parte
A mãe que não queria ver o filho preocupado e com medo, inventou uma desculpa e disse que o pai ia à caça com os amigos.
No dia seguinte, na escola, ouviu uma conversa entre a professora e o senhor Amaro, que trabalhava na administração do concelho como escriturário.
 Falavam baixo, mas ouviu que falavam da milícia e dos turras. E estavam preocupados.
Intrigado, perguntou aos outros colegas se nas suas casas havia algo de anormal?
Todos responderam que não.
Seria possível que só ele estaria preocupado com o que se estava a passar no norte? Só ele não. Os adultos também estavam. Por que razão faziam milícia? E o que era milícia? E o que quer dizer upa? E turras?
Tantas perguntas para a qual não tinha respostas e que os adultos não estavam com disposição para esclarecer.
O tempo foi passando. Carlos acabou a primária e foi estudar para a cidade de Moçâmedes. Ficou na casa do seu avô paterno.
O seu avô, natural da Metrópole, gostava muito de ouvir as notícias no rádio que tinha na sala de jantar e que era alimentado por uma bateria grande.
À hora das notícias, todos tinham que ficar calados, pois ele queria ouvir todas as notícias sem barulho. Foi aí que Carlos deu conta de que algo de anormal se estava a passar no norte de Angola.
Um dia, quando conversava com o seu avô, sentado no quintal da vivenda onde viviam, perguntou-lhe o que se estava a passar no norte de Angola com os turras.
Seu avô explicou-lhe que turras, quer dizer terroristas e que eram um bando de negros do Congo que tinham invadido Angola e tinham morto à catanada alguns colonos portugueses. Mas que o governo de Salazar já tinha mandado tropas para guardar o território.
Carlos interrompeu o seu avô e perguntou quem era Salazar?
O avô, com grande paciência, explicou-lhe que Salazar era o governante do país. Estava em Lisboa, capital de Portugal e era quem mandava em tudo.
Carlos aproveitou a boa disposição do seu avô, e perguntou-lhe o que era milícia.
Novamente o avô de Carlos, explicou que milícias eram grupos de cidadãos que com as suas armas de caça, faziam rondas pelas cidades e vilas para guardar a população, normalmente à noite quando todos estavam a dormir, para que não acontecesse o mesmo que aconteceu no norte de Angola.
Depois de uma pausa, o avô de Carlos continuou:
-Não te preocupes meu neto. Estuda para seres um homem. Salazar já mandou muita tropa para Angola e os militares vindos da Metrópole, já estão a tomar conta da situação.
Como o avô de Carlos já tinha uma idade que não lhe permitisse acompanhar os estudos do neto com a atenção necessária, o pai de Carlos falou com um seu amigo que além de professor na escola comercial e industrial Infante D. Henrique, onde Carlos ia continuar os seus estudos, era também o comandante da Mocidade Portuguesa, para ser o encarregado de educação de Carlos, perante a escola.
A Mocidade Portuguesa era uma organização de origem política cujos membros tinham uma farda composta por calção de caqui e camisa verde com o escudo de Portugal bordado no bolso esquerdo, meias altas até ao joelho, sapatos os botas castanhas e um cinto em cabedal de cor castanha, cuja fivela era um S. O S de Salazar.
 Continua

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013



               ANOS CONTURBADOS DE UMA ANGOLA EM MUDANÇA
                                                      II Parte
Carlos olhou para o Mapa e pouco depois disse: Está aqui. Vila Arriaga é este pequeno ponto junto a esta serra.
A professora então explicou:
- Pois bem meninos. A nossa vila chama-se Vila Arriaga, mas o concelho chama-se Bibala. Há mapas que trazem o nome dos concelhos, mas outros apenas trazem o nome das cidades e vilas mais importantes. É este o caso. Mas o mais importante é vocês fazerem como o Carlinhos. Ao procurarem o nome das cidades e vila no mapa, estou a estudar a sua localização e isso é muito importante. Quando forem para casa ou mesmo aqui durante o recreio, estudem o mapa e vão ver que encontram muitos nomes de terras que pertencem a Angola, mas que não conhecem. É uma boa forma de se estudar geografia.
Os colegas de Carlos, entusiasmados com a ideia, faziam jogos.
Lurdes foi a primeira a perguntar aos colegas:
Ora vejam lá, onde está Benguela?
E todos se puseram a ver no mapa para ver se encontravam Benguela.
O jogo continuou, sempre com a procura de nomes novos.
Só o Carlos, não entrou na brincadeira, estava mais preocupado em saber qual a distância entre o norte e o Sul.
Queria saber se o massacre que ouviu o seu pai falar com os amigos, ficava perto ou longe. E o que na realidade se tinha passado.
No fim das aulas, depois de todos terem saído, Carlos que se tinha deixado ficar para último, virou-se para a professora e perguntou:
Senhora professora. Por favor diga-me se o Norte é perto daqui.
A professora sem suspeitar de nada, respondeu:
- Carlinhos, o norte é muito grande e é muito longe daqui. Mas porque queres saber?
Carlos, encheu-se de coragem e disse à sua professora.:
- Senhora professora, ontem à noite, ouvi o meu pai conversar com o meu tio Fernando e com o senhor Simões e diziam que no norte tinha havido uma revolta e que tinha morrido muita gente.
A professora que sabia o que se tinha passado, pois também ouvira as notícias dadas pela rádio católica, apressou-se a sossegar o seu aluno, dizendo:
-Não te preocupes. O norte é muito longe daqui e o que lá se passou, foi apenas uma revolta dos trabalhadores contra os patrões. Mas não foi nada de grave. Não houve mortes como dizes. Com certeza ouviste mal e confundiste morte com norte.
Vai para casa e estuda. Não te preocupes que isto passa.
Carlos foi para casa, mas não ia convencido. Tinha a certeza de ter ouvido o seu pai falar em massacre e catanas e uma tal UPA.
Quando chegou a casa, arrumou a pasta da escola e foi para o escritório do pai a estudar o mapa e ver se descobria algo mais.
 Sempre que o rádio do pai que se encontrava no escritório sempre ligado, dava notícias, Carlos ficava com muita atenção para ver se ouvia algo mais sobre o norte e o massacre.
 Mas nada. O senhor do rádio não falava nada sobre o tal massacre.
 Durante o jantar, viu que o seu pai comia à pressa, o que não era normal.
 Depois do jantar, o seu pai vestiu um casaco e saiu com a arma de caça que tinha. Uma caçadeira de dois canos e um cinto com cartuchos.
Carlos perguntou à mãe:
- Mãe onde é que o pai vai com a arma?